sexta-feira, 9 de outubro de 2015

A Pessoa




Texto 1
O que é uma pessoa?

É possível dar à expressão "ser humano" um significado preciso. Podemos usá-la como equivalente a "membro da espécie Homo sapiens". A questão de saber se um ser pertence a determinada espécie pode ser cientificamente determinada por meio de um estudo da natureza dos cromossomas das células dos organismos vivos. Neste sentido, não há dúvida que, desde os primeiros momentos da sua existência, um embrião concebido a partir de esperma e óvulo humanos é um ser humano; e o mesmo é verdade do ser humano com a mais profunda e irreparável deficiência mental — até mesmo de um bebé anencefálico (literalmente sem cérebro).
Há outra definição do termo "humano", proposta por Joseph Fletcher, teólogo protestante e autor prolífico de escritos sobre temas éticos. Fletcher compilou uma lista daquilo a que chamou "indicadores de humanidade", que inclui o seguinte:

                           Autoconsciência
                           Autodomínio
                           Sentido do futuro
                           Sentido do passado
                           Capacidade de se relacionar com outros
                           Preocupação pelos outros
                           Comunicação
                           Curiosidade

É este o sentido do termo que temos em mente quando elogiamos alguém dizendo que "é muito humano" ou que tem "qualidades verdadeiramente humanas". Quando dizemos tal coisa não estamos, é claro, a referir-nos ao facto de a pessoa pertencer à espécie Homo
Sapiens que, como facto biológico, raramente é posto em dúvida; estamos a querer dizer que os seres humanos possuem tipicamente certas qualidades e que a pessoa em causa as possui em elevado grau.
Estes dois sentidos de "ser humano" sobrepõem-se mas não coincidem. O embrião, o feto subsequente, a criança gravemente deficiente mental e até mesmo o recém-nascido, todos são indiscutivelmente membros da espécie Homo sapiens, mas nenhum deles é autoconsciente nem tem um sentido do futuro ou a capacidade de se relacionar com os outros. Logo, a escolha entre os dois sentidos pode ter implicações importantes para a forma como respondemos a perguntas como "Será que o feto é um ser humano?"
Quando escolhemos as palavras que usamos em situações como esta, devemos empregar os termos que permitam exprimir o que queremos dizer com clareza e que não introduzam antecipadamente juízos sobre a resposta a questões substanciais. Estipular que usamos o termo "ser humano", digamos, no primeiro sentido e
 que, portanto, o feto é um ser humano e o aborto é imoral não ajudaria em nada. Tão-pouco seria melhor escolher o segundo sentido e defender nesta base que o aborto é aceitável. A moral do aborto é uma questão substancial, cuja resposta não pode depender do sentido que estipularmos para as palavras que usamos. Para evitar fazer petições de princípio e para tornar o meu sentido claro, porei de lado, por agora, o ambíguo termo "ser humano" e substitui-lo-ei por dois termos diferentes, correspondentes aos dois sentidos diferentes de "ser humano". Para o primeiro sentido, o biológico, usarei simplesmente a expressão extensa mas precisa "membro da espécie Homo sapiens", enquanto para o segundo sentido usarei o termo "pessoa".

Este uso da palavra "pessoa" é, ele mesmo, infeliz, susceptível de criar confusões, dado que a palavra "pessoa" é muitas vezes usada como sinónimo de "ser humano". No entanto, os termos não são equivalentes; poderia haver uma pessoa que não fosse membro da nossa espécie. Também poderia haver membros da nossa espécie que não fossem pessoas. 
Máscaras do teatro antigo (Grécia - sec.IV a.C.)

A palavra "pessoa" tem a sua origem no termo latino para uma máscara usada por um ator no teatro classico (persona). Ao porem máscaras, os actores pretendiam mostrar que desempenhavam uma personagem. Mais tarde "pessoa" passou a designar aquele que desempenha um papel na vida, que é um agente. De acordo com o Oxford Dictionary, um dos sentidos actuais do termo é "ser autoconsciente ou racional". Este sentido tem precedentes filosóficos irrepreensíveis. John Locke define uma pessoa como:
"um ser inteligente e pensante dotado de razão e reflexão e que pode considerar-se a si mesmo como aquilo que é, a mesma coisa pensante, em diferentes momentos e lugares."

Esta definição aproxima a "pessoa" do sentido que Fletcher deu a "ser humano", com a diferença que escolhe duas características cruciais — a racionalidade e a autoconsciência — para cerne do conceito. É muito possível que Fletcher concordasse que estas duas características são centrais e que as restantes decorrem mais ou menos delas. Em todo o caso, proponho-me usar o termo "pessoa" no sentido de um ser racional e autoconsciente, para captar os elementos do sentido popular de "ser humano" que não são abrangidos pelo termo "membro da espécie Homo sapiens".
Peter Singer
 Clique na imagem para saber a resposta
Clique na imagem para saber a resposta
Tradução de Álvaro Augusto Fernandes - Texto retirado de Ética Prática, de Peter Singer (Lisboa: Gradiva, 2000).



A complexidade do conceito de Pessoa

No conceito de Pessoa confluem ideias oriundas dos mais variados campos: da ética, da moral, do mundo físico, do horizonte jurídico. A Pessoa não é uma coisa, um objeto, um meio para a satisfação dos fins, necessidades ou desejos de outras pessoas. O carácter consciente das decisões que toma e a responsabilidade assumida pelas palavras proferidas e atos realizados são algumas das mais relevantes características do ser Pessoa.
É no tipo de finalidades que cada ser humano busca que podemos encontrar uma definição do conceito de Pessoa. O filósofo Kant, pensando as finalidades do Homem, reduziu-as a três:

"1.° - A disposição para a animalidade do Homem, como ser vivo;
 2.° - A sua disposição para a humanidade, enquanto ser vivo e racional;
 3º - A sua disposição para a personalidade, enquanto ser racional e também
responsável.

1.° Podemos colocar a disposição para a animalidade no Homem sob o título geral de amor de si, físico e simplesmente mecânico, ou seja, dum amor de si que não envolve uma razão. É de natureza tripla: primeiro, em vista da conservação de si mesmo; em segundo lugar, em ordem à propagação da sua espécie por meio do impulso ao sexo e à conservação do que é gerado pela união dos sexos; em terceiro lugar, em vista da comunidade com outros homens, isto é, o impulso à sociedade. [...]

2.° As disposições para a humanidade podem agrupar-se sob o título geral do amor de si, sem dúvida físico, mas que compara [para o que se exige a razão, a saber: julgar-se ditoso (feliz) ou desditoso (infeliz), só em comparação com outros. Do amor de si promana a inclinação para obter para si um valor na opinião dos outros; e originalmente, claro está, apenas o [valor] da igualdade [...].[Os seres humanos têm a tendência para quererem igualar-se aos outros].
3.” A disposição para a personalidade é a capacidade para experimentar o respeito da lei moral enquanto motivo por si mesmo suficiente, do arbítrio. Esta capacidade para o respeito pela lei moral, em nós, seria o sentimento moral, que, no entanto, não constitui por si ainda um fim da disposição natural, a menos que seja motivo para o arbítrio. [...]"
Kant, A Religião nos Limites da Simples Razão

Há no texto de Kant uma hierarquia cujo patamar superior é a esfera da personalidade implicando: a libertação dos limites, submissões e determinismos da esfera da animalidade; a superação da esfera da humanidade, diferenciando-nos dos demais sujeitos, singularizando-nos, indo além do prestígio de que se reveste o que socialmente é considerado mais atraente ou eficaz. Na medida em que refletimos e exercemos um juízo critico sobre o mundo e nós mesmos e nos descobrimos como seres cuja liberdade está aberta ao compromisso e proximidade com outras pessoas, aplicando valores universais a situações particulares, alcançamos a esfera da personalidade.
Em psicologia, personalidade designa o conjunto de esquemas que organizam o comportamento de um indivíduo em concreto, isto é, uma pessoa.
De modo sintético, os traços caracterizadores do "ser pessoa" são os seguintes;
- dignidade absoluta. uma vez que não pode nem deve ser usada como um meio para um fim;
- singularidade, na medida em que é única e se distingue das demais pessoas;
- juízo critico, rejeitando o que é mau ou negativo e construindo um mundo melhor;
- liberdade e autonomia, já que pensa pela sua cabeça e rejeita a manipulação;
- abertura, saindo para fora de si, disponibilizando-se sem nada esperar em troca, sendo capaz de, em qualquer altura, aprender com novas experiências;
- compromisso, sem indiferença, tomando sobre si os desgostos, tarefas e alegrias dos outros;
- proximidade, o amor, amizade e simpatia (capacidade de se colocar no lugar do outro) que deseja o bem do outro e dá sem nada pedir.

Adelaide Galvão Teles e Outros, Manual de área de Integração, Vol.1, Raiz Editora, pp. 46-47.




O que há para lá da máscara?


quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Prometheus

Prometheus e a Busca da Iluminação

Na mitologia grega, Prometeu é um titã, a raça de divindades que vieram antes dos deuses do Olimpo. Ele roubou o fogo dos deuses para dá-lo à humanidade – um ato que levou ao progresso e à civilização. Para realizar o ato de trazer fogo (um símbolo do conhecimento divino) para a humanidade, Prometeu tornou-se uma figura importante na mitologia das escolas de mistério, como a Maçonaria e Rosacrucianismo, que se baseiam no uso de conhecimento oculto, a fim de alcançar a divindade.

O equivalente judaico-cristão de Prometeu é Lúcifer, um “anjo caído” de grande inteligência, que no início era o favorito de Deus, depois desafiou Deus e trouxe uma nova forma de conhecimento para a humanidade. O nome Lúcifer é deriva do latim e significa “portador da luz”, que é exatamente o que Prometeu fez, trazendo a luz do fogo (do conhecimento) à Humanidade. 

No início da viagem espacial, o presidente da corporação que financia a missão dá um discurso sobre a importância da missão:

“O titã Prometeu queria colocar em pé de igualdade a humanidade com os deuses e por isso, ele foi expulso do Olimpo. Bem, meus amigos, a hora finalmente chegou para o seu retorno”.

No filme, Prometeu é o nome da nave espacial que transporta os seres humanos aos seus Engenheiros alienígenas. Ele representa simbolicamente seres humanos usando o “fogo” (conhecimento) que lhes foi dado para voltarem à divindade (seus criadores aliens) pelos seus próprios meios. Esta metáfora de iniciação espiritual é uma reminiscência das muitas histórias mitológicas encontradas ao longo da história que escondem um significado semelhantemente.

No entanto, as Escolas de Mistérios acreditam que a iluminação não é dada a todos, mas apenas a alguns poucos escolhidos e isso é apropriadamente refletido em ‘Prometheus’. No filme, todas as pessoas que estavam a bordo para fins egoístas, monetários ou inautênticos morreram. Só o quem estava lá por amor à verdade e com uma forte fé espiritual sobreviveu.

Além de Elizabeth, só sobreviveu David, o Andróide, um ser inteligente criado pelo homem - o que
não deixa de ser muito interessante: o homem é capaz dum ato divino ao criar seres inteligentes. Mas isso não faz do homem um ser divino em si, se com isso quisermos referir-nos a uma inteligência superior, iluminada por uma bondade sem limites. Na verdade os Engenheiros que os astronautas da nave Prometheus procuram também não sem nem bons nem perfeitos.

No final do filme, David fica sua cabeça cortada, mas, já que ele é um robô, as funções que ele registou continuam. Elizabeth pega na cabeça do robô e continua a sua busca, o que simbolicamente significa que ela precisa de intelecto puro e tecnologia para alcançar a iluminação

David tem grande capacidade intelectual, o que o leva a acreditar que ele é superior aos seus colegas humanos. Apesar deste facto, ele é, no entanto, fundamental para a busca de Elizabeth – uma sutil mensagem informando que o transumanismo é importante na evolução humana, uma crença da própria Elite.

No final do filme, David não entende por que é que Elizabeth deseja continuar a sua busca pelos seus criadores. A diferença é que ela tem uma alma e que ele não. É por esta razão que ela volta a colocar a cruz no pescoço. A sua busca não é simplesmente uma missão espacial, é uma peregrinação espiritual para descobrir de onde ela vem.

Na cena final do filme, Elizabeth decide não voltar para a Terra (representando a materialidade) e continua a procurar os Engenheiros (representando a iluminação e a divindade). A sua busca portanto, não acabou… e pode haver uma continuação


Conclusão

Enquanto a maioria dos espectadores provavelmente ficou com a convicção de que ‘Prometheus’ é um “filme decente sobre aliens”, poucos sabem do seu profundo significado e simbolismo. Inspirando-se na teoria dos antigos astronautas, ‘Prometheus’ propõe uma reconfiguração radical da história e da teologia, que faz da humanidade um produto de “deuses criadores” extraterrestres. O filme também mistura essa busca de conhecimento científico com as questões espirituais e metafísicas, tornando esta história não só sobre aliens furiosos, mas sobre questões existenciais sem fim.
Como o título do filme sugere, a história de seres humanos que vão para o espaço para encontrar os seus criadores tem um significado espiritual (esotérico) subjacente, e de como ela pode ser interpretada como uma metáfora para a iluminação espiritual. O titã Prometeu é uma figura central em escolas de mistério ocultistas, uma figura arquetípica de um “rebelde superior”, que trouxe o conhecimento divino para a humanidade – com todos os benefícios e as armadilhas que isso gera. As sociedades secretas ocultistas acreditam que esse conhecimento fornece o caminho de volta para a divindade. Da mesma forma que a nave Prometheus deixa a terra para encontrar os Engenheiros, o ocultismo iniciático mostra como deixar o plano material para atingir a iluminação e “ser um” com o que eles acreditam ser o “Grande Arquiteto do Universo”.
Dito isto, há alguma verdade nas muitas histórias e mitologias que se referem a uma figura divina que vem de cima para transmitir conhecimento à humanidade? Existe uma fonte “externa” para o conhecimento avançado e esotérico da humanidade? Houve uma vez uma “super-raça” como os Nefilins na Terra ajudando a humanidade a “desenvolver-se”, mas, finalmente, corrompendo-a? É este o “elo perdido” na evolução humana? É a razão pela qual a humanidade é auto-destrutiva e de alguma forma está fora de sincronia com o resto do planeta? Será que esta fonte exterior vem de aliens como sugerido em ‘Prometheus’ ou de anjos caídos e/ou demónios, como escrito em textos antigos? Será esta a fonte externa por trás dos ensinamentos das sociedades secretas e por trás… dos Illuminati?

Texto copiado aqui

Rever matéria do tema 1.2 (Módulo 01):


________________
Atividades:

1. Elabore uma lista de questões/problemas relacionados com os temas abordados no filme. A lista deve ser exaustiva.

2. Escolha as 3 questões que considera mais importantes.

3. Construa um mapa conceptual interpretativo do filme.

4. Elabore uma reflexão crítica sobre o filme.


quarta-feira, 7 de outubro de 2015

A dimensão política da arte




A dimensão social da arte

As relações entre a arte e a sociedade são recíprocas e dinâmicas. Tanto o campo social influencia a produção artística (conforme procura explicar a História da Arte, ao reconstruir as circunstâncias em que se concebem as obras, de modo a compreender e a explicar a sua evolução e a sua forma e significado), como a arte condiciona o contexto social.

A repercussão social da arte, resultado do seu processo de circulação no seio da sociedade que chega ao seu destinatário ou público consumidor, permite conhecer o raio de ação do campo artístico sobre o campo social, o efeito (interesse, indignação ou indiferença) que a obra desencadeia no público e o seu consumo (interpretação e contemplação ou utilização da obra).

A interdependência, medida pelas influências e conexões, da arte com o seu meio social sugere-nos o estudo da dimensão social do facto artístico, que se situa num campo vasto, complexo e interdisciplinar. Consequentemente, referir a conexão entre a arte e a sociedade e sugerir uma dimensão social da arte pressupõe encarar a obra como um produto social, por um lado, e como um elemento constitutivo da própria sociedade, por outro lado.


Caravaggio, 'A Morte da Virgem'(1606)
A teoria da arte como imitação apresenta a arte como espelho da realidade. Contrariando esta lógica do reflexo, Bourdieu defende que é o campo artístico que exerce um efeito de reestruturação ou de refracção devido às suas forças e formas específicas. Assim a arte não é um mero reflexo da realidade social.
/.../

A criação artística como expressão social está patente na variedade de estilos, formas, matérias e temas que marcam as épocas das obras de arte. Ao longo da história, a arte tem conseguido expressar a diversidade religiosa: os templos gregos em honra dos deuses, as pirâmides egípcias, as mesquitas árabes, os mosaicos bizantinos ou os vitrais góticos e os capitéis românicos das catedrais ocidentais.

A arte é interpretação da sociedade e tanto pode corroborar como criticar uma determinada situação social ou certos valores de uma época. Esta possibilidade atribui à obra um certo valor social de intervenção. Por exemplo, uma obra ou monumento comemorativo pode representar ou simbolizar tanto um regime democrático (a Estátua da Liberdade, em Nova Iorque) como o absolutismo do poder político (a águia imperial no Bundestag ou Versalles a reforçar a ideia de Estado centralizado de Luís XIV). O valor de propaganda política da obra pode, no entanto, condicionar a ação criadora do artista. O poder está consciente da força persuasiva da arte, da possibilidade de expressar tendências sociais a favor ou contra um ideal político, pelo que em sociedades totalitárias o artista vê a sua produção subordinada à crítica, à condenação e à censura.

O artista tanto pode desenvolver uma obra apologista do regime político como servir-se da arte para condenar uma certa ideologia.

Com frequência, a arte interpreta a sociedade de forma interventiva e crítica. Por exemplo, Guernica, de Pablo Picasso, revelou a solidariedade do artista com os Republicanos despertada pela Guerra Civil de Espanha. O painel foi inspirado no bombardeamento de Guernica, antiga capital dos Bascos. Não representa o próprio acontecimento, mas evoca, mediante as imagens e formas adoptadas por Picasso, a agonia da guerra. A obra, de 1937, constitui uma visão profética de desgraça do bombardeamento de saturação que marcou, depois, a Segunda Guerra Mundial.

A realidade é o que é em si: una, objectiva, concreta. Mas é uma diversidade de coisas ou estados de coisas. Por isso também é diversa, heterogénea. O que designamos vulgarmente por sociedade ou contexto social não é mais do que um conjunto heterogéneo de situações, pessoas, padrões culturais e realidades de ordem diversa (a estrutura social engloba crenças e práticas religiosas, mercados económicos, ações políticas, níveis culturais, pensamentos científicos, ideias sobre arte, etc.). As visões, perspectivas ou modos de interpretar artisticamente a realidade são diversas e criam realidades heterogéneas. Visões subjetivas do mundo codificado social e culturalmente. O artista é o intérprete da colectividade à qual pertence.

Também o termo “arte” pressupõe uma realidade diversa, razão pela qual existem linguagens artísticas diferentes e peculiaridades técnicas e materiais das obras. A diversidade da realidade artística e a peculiaridades das linguagens e técnicas da arte explicam a capacidade de produção e de recepção de influências do meio social. Existem tantos modos de ver como mundos interpretados pela arte, na medida em que proliferam redes ou estruturas onde se produzem e se consomem as obras de arte, pelo que se pode dizer que o campo de possibilidades da arte é virtualmente infinito.

A arte também é transformação ou recriação do real. O mundo real não coincide com o real da arte. A obra de arte revela uma realidade transfigurada. Da conjugação da realidade social com o pensamento e sentimento que movem o artista nasce a obra.

/.../ Além de processos de expressão ou modos de comunicação, as formas artísticas têm a possibilidade de influir nos gostos, ideias, comportamentos ou atitudes de determinados grupos sociais como de suscitar escândalo ou polémica. São inúmeros os factores que condicionam os efeitos sociais da arte. Primeiro, a função da obra de arte e a sua incidência nos padrões culturais da sociedade ou nos modos de pensar de um determinado grupo social.
/.../ Quando exprime o seu gosto, o indivíduo revela a cultura em que foi formado. Em cada época existem factores que determinam a formação de padrões ou critérios de beleza aos quais o indivíduo, inserido num determinado contexto sociocultural, se submete quer para produzir obras de arte, enquanto artista, quer para avaliá-las, enquanto espectador.
 Ao longo da história surgiram diferentes ideais de beleza que se solidificaram no seio social e que os artistas ora imortalizaram com obras de arte ora transformaram com outros estilos, critérios e formas de expressão artística. O gosto ou os cânones dominantes de uma determinada sociedade numa certa época tende a condicionar eventuais novas formas de expressão estética.
Com frequência, líderes de opinião condicionam a receptividade pública de obras por veicularem juízos estéticos e críticos. A moda ou seguidismo do público são proporcionados pela emissão, por parte dos críticos, de juízos estéticos sobre as obras. Outro caso curioso prende-se com a obra de Edouard Manet (1832-1883), pintor francês que hoje é geralmente considerado o percursor da pintura moderna, mas que em vida apenas teve Émile Zola como único crítico que valorizou a sua obra. Independentemente da qualidade artística, a maior parte das obras de Manet rejeitadas no século XIX encontram-se hoje nos museus mais importantes espalhados pelo mundo. As obras são as mesmas. O que mudou foi a apreciação da sua qualidade, os juízos de valor dependentes das ideias, interesses e gostos historicamente variáveis das pessoas que os formulam e que são condicionados pela sociedade e pela cultura de uma determinada época.
A arte pode assumir a condição de expressão tanto de um mundo interior (experiência pessoal, ideais, gostos transparecem na criação do artista) como de um mundo exterior do artista. Apresenta-se ao público, por conseguinte, como uma concepção individual. No entanto, o artista não é imune às influências do meio social em que vive. É um ser histórico, com um determinado contexto sociocultural e com um passado de experiências que se repercutem na obra.
/.../ É na realidade que o artista se inspira (cores, formas, sons, ideias, movimentos, matérias) e impõe a sua arte. O artista vive num mundo social onde se instruiu com hábitos, usos, costumes, modos de ver e interesses; exercitou as suas aptidões; formou os seus padrões culturais; e apurou os seus sentidos para a experiência estética. A interiorização dos padrões vigentes na sociedade de que faz parte o artista tornou-o alguém com capacidades de aplicar esteticamente os elementos sociais que integra.
Paulo Barroso, http://www.aps.pt/cms/docs_prv/docs/DPR460e84135cce8_1.pdf

__________

A teoria da arte como imitação pode ser politicamente conservadora, mas também pode ser transformadora da sociedade (revolucionária) se procurar mostrar os problemas que se vivem na sociedade...

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Lixo Extraordinário



Filmado ao longo de dois anos (Agosto de 2007 a Maio de 2009) “Lixo Extraordinário” acompanha o trabalho de Vik Muniz no aterro do Jardim Gramacho (Rio de Janeiro), o maior aterro sanitário da América Latina . Nesse lugar, ele fotografou um grupo de catadores de materiais recicláveis, com o objetivo inicial de retratá-los. 

No entanto, o trabalho com essas personagens vai revelando a dignidade e o desespero que enfrentam quando lhes é sugerido que imaginem as suas vidas fora daquele ambiente. A equipa de filmagem tem acesso a todo o processo e, no final, revela o poder transformador da arte e da alquimia do espírito humano.

Consagrado pelo público como o melhor documentário em festivais como Sundance, Berlim, entre outros, o filme tem realização conjunta de João Jardim ('Janela da Alma' e 'Pro Dia Nascer Feliz'), da cineasta Karen Harley e da documentarista inglesa Lucy Walker. 
Segundo o dicionário “lixo” significa qualquer material considerado inútil, supérfluo, e/ou sem valor, gerado pela atividade humana. Antes de chegar ao Jardim Gramacho, Vik Muniz e os diretores do documentário não esperavam encontrar nada muito diferente disso, mas se surpreenderam ao conhecer pessoas cativantes, cheias de dignidade, como Tião, jovem presidente da Associação de Catadores do Aterro Metropolitano de Jardim Gramacho (ACAMJG), ou Zumbi, catador que resgata os livros do lixão e acabou montando uma biblioteca com os exemplares.

Inaugurado em 1970 como uma instalação para resíduos sólidos, o aterro se transformou em moradia para uma comunidade anárquica de catadores durante as crises econômicas dos anos 70 e 80. Esses catadores viviam e trabalhavam no lixo, com a coleta e venda de sucata e materiais recicláveis. Ao redor do aterro se estruturou a favela do Jardim Gramacho, que tem uma economia totalmente dependente do comércio de materiais recicláveis. Os trabalhadores removem diariamente toneladas de materiais recicláveis. Assim eles prolongam a vida do aterro, eliminando materiais que teriam sido enterrados e contribuem para o ex-lixão ter uma das taxas de reciclagem mais elevadas do mundo. O aterro sanitário do Jardim Gramacho está previsto para se fechado em 2012 e grupos como a ACAMJG estão lutando para aumentar o apoio e fornecer capacitação para os catadores.
http://www.eco21.com.br/textos/textos.asp?ID=2398


Uma das características da arte de Vik Muniz é a referência a obras de outros artistas.
Dessa forma, será muito interessante, para a ampliação da percepção artística, a pesquisa em livros de arte ou sites sobre as obras que foram fontes de inspiração para Vik Muniz:


Mulher a Passar a Ferro, de Pablo Picasso (1904, óleo sobre tela) e Mulher Passando Roupa (Ísis);


     























Albanesa, de Camille Corot (1872, óleo sobre tela) e A Cigana (Magna);

                 



Madonna com Criança, de Giovanni Bellini (1510, óleo sobre tela) e Mãe e
Filhos (Suellen);




O Semeador, de Jean-François Millet (c. 1865, pastel e lápis sobre papel) e O
Semeador (Zumbi);


Van Gogh, O Semeador - 1888




















Marat Assassinado, de Jacques-Louis David (1793, óleo sobre tela) e Marat
(Sebastião).





O recurso da recriação fica mais evidente na obra Marat (Sebastião), pois estabelece
um diálogo direto com a famosa pintura de Jacques-Louis David. 

domingo, 4 de outubro de 2015

O Rapaz de Pijama às Riscas


Este texto baseia-se no livro, mas pode servir de base a uma análise do filme.

As Leis e a (Não-)Discriminação

 “O Rapaz do Pijama às Riscas”, escrito em 2006 por Joyne Boyne e adaptado ao cinema em 2009  por Mark Herman, narra o dia a dia de Bruno, um menino alemão nascido em Berlim a 15 de Abril de 1934, filho de um oficial das Forças Armadas do III Reich. Bruno, aos nove anos, mora em “Acho‐vil” (local que o Autor nos induz a pensar que seria Auschwitz) e interroga‐se sobre o que fazem as pessoas que estão do outro lado da vedação de arame que vê da janela da sua casa. 

Pergunta à irmã mais velha “porque é que puseram a vedação?” e “porque é que não podemos passar para o outro lado? Que mal é que nós fizemos para não podermos ir para aquele lado brincar?” 

A sua incompreensão perante a divisão entre “os judeus” e “os opostos” (grupo ao qual a irmã lhe explica que a sua família pertence) e ódio que os “opostos” têm aos judeus termina com a sua morte. Ao contrário do que sucede no romance  O  Príncipe e o Pobre de Mark Twain , Bruno não troca de identidade com Shmuel, o seu amigo judeu. Bruno veste o pijama de riscas que constitui o uniforme dos judeus no campo de concentração e, seguindo o conselho que lhe fora dado pela avó (“Se usares o traje certo, vais sentir‐te exatamente a pessoa que estás a fingir que és”) finge “ser uma pessoa que vive do outro lado da vedação” e acaba por ser morto, numa câmara de gás, provavelmente em consequência de uma ordem dada pelo seu pai, comandante do campo de concentração.

Para além da questão fundamental de, como relata André Frossard, o século XX ter sido o século em que os Homens mais e melhor se mataram uns aos outros, este livro (e o filme)  toca no cerne do Direito da Igualdade e da Não Discriminação: construímos continuamente ‘vedações’ em torno de grupos de pessoas: porque são mulheres, porque são negras, porque são homossexuais, porque são incultas ou estrangeiras… 

As vedações podem ser mais ou menos rendilhadas, lembrando‐nos os nossos trabalhos tradicionais em ferro forjado: quantas gotas de sangue judeu se tem de ter para se ser juridicamente considerado como Judeu? (...).

Algumas pessoas colocadas num campo protegido por várias vedações. O acesso a bens e serviços é‐lhes extraordinariamente dificultado. Mas, sobretudo, são ofendidas no essencial daquilo que o as leis devem proteger: a sua dignidade de seres humanos. É precisamente isso o que se passa hoje em dia com os refugiados.

As leis  podem contribuir para  acabar com a discriminação, se se basearem nos Direitos Humanos. Se os Estados seguirem o que está estipulado na Declaração Universal dos Direitos Humanos, deixarão de existir vedações, quer dentro de cada país, quer nas suas fronteiras.

Caso contrário tudo dependerá do olhar de quem decide construir a vedação: podemos querer colocar do outro lado da vedação estrangeiros, os portadores de doença ou de deficiência, os judeus, os ciganos, os pobres … Mas também podemos fazê‐lo em relação aos obesos, aos idosos, aos míopes ou aos calvos! 

No limite, todos seremos discriminados ao longo das nossas vidas e todos sentiremos o frio e a insegurança que Bruno relata quando passa para o outro lado da vedação.  

Só com leis anti‐discriminatórias centrados no respeito pelo outro por ser uma pessoa diferente de todas as outras e a quem a sociedade deve criar condições para que possa desenvolver de forma livre e harmoniosa a sua personalidade, conseguiremos aquilo que aquilo que John Boyne propõe, no fim do livro:  

“Claro que tudo isto aconteceu há muito tempo e nada de parecido poderá voltar a acontecer. Não nos dias de hoje, não na época em que vivemos”.

http://www.fd.unl.pt/anexos/3785.pdf

   1. Comente o último parágrafo do texto tendo em conta o problema dos refugiados abordado na ficha m1.01.
    2. Elabore uma uma reflexão crítica sobre o filme (pode partir da resposta à questão 1).

__________________

O filme baseia no livro de John Boyne com o mesmo título.













O livro existe na BECRE.







Trabalho de grupo sobre a Arte

O que é a arte by paulofeitais on Scribd                            Teorias estéticas from Paulo Gomes Trabalho de grupo:...