domingo, 9 de novembro de 2014
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
O Espírito Olímpico e a Ética no Desporto
Olimpismo
O Olimpismo moderno foi concebido por Pierre de Coubertin, por cuja iniciativa se realizou o Congresso Atlético Internacional em Paris em Junho de 1894. Em 23 de Junho de 1894 foi constituído o Comité Olímpico Internacional.
Os primeiros Jogos Olímpicos (Jogos da Olimpíada) da era moderna foram celebrados em Atenas, Grécia, em 1896. Em 1914, foi adoptada a bandeira olímpica, oferecida por Pierre de Coubertin no Congresso de Paris.
Esta é composta por cinco anéis entrelaçados, que representam a união dos cinco continentes e o encontro dos atletas do mundo inteiro nos Jogos Olímpicos. Os primeiros Jogos Olímpicos de Inverno foram celebrados em Chamonix, França, em 1924.
O espírito olímpico - Princípios Fundamentais do Olimpismo
1. O Olimpismo é uma filosofia de vida que exalta e combina de forma equilibrada as qualidades do corpo, da vontade e do espírito. Aliando o desporto à cultura e educação, o Olimpismo é criador de um estilo de vida fundado no prazer do esforço, no valor educativo do bom exemplo e no respeito pelos princípios éticos fundamentais universais.
2. O objectivo do Olimpismo é o de colocar o desporto ao serviço do desenvolvimento harmonioso do Homem com vista a promover uma sociedade pacífica preocupada com a preservação da dignidade humana.
3. O Movimento Olímpico é́ a acção, concertada, organizada, universal e permanente, de todos os indivíduos e entidades que são inspirados pelos valores do Olimpismo, sob a autoridade suprema do Comité Olímpico Internacional (COI). Estende-se aos cinco continentes e atinge o seu auge com a reunião de atletas de todo o mundo no grande festival desportivo que são os Jogos Olímpicos. O seu símbolo é constituído por cinco anéis entrelaçados.
4. A prática do desporto é um direito do homem. Todo e qualquer indivíduo deve ter a possibilidade de praticar desporto, sem qualquer forma de discriminação e de acordo com o espírito Olímpico, o qual requer o entendimento mútuo, o espírito de amizade, de solidariedade e de fair play. A organização, administração e gestão do desporto devem ser controladas por organizações desportivas independentes.
5. Toda a forma de discriminação relativamente a um país ou a uma pessoa com base na raça, religião, política, sexo ou outra é incompatível com a pertença ao Movimento Olímpico.
6. Pertencer ao Movimento Olímpico exige o respeito da Carta Olímpica e o reconhecimento pelo COI.
http://comiteolimpicoportugal.pt/definicao-olimpismo/
Lista das modalidades Olímpicas: Consultar aqui
____________
VOCÊ É UM DESPORTISTA (de acordo com o espírito olímpico)?
PENSE:
- Como jogador.
1. Você joga pela causa do jogo em si?
2. Você joga pela sua equipa e não por si próprio?
3. Você obedece às ordens do seu capitão sem as criticar?
4. Você aceita a decisão do árbitro como sendo definitiva?
5. Você ganha sem ostentar e perde sem lamentar?
6. Prefere perder do que fazer algo de que não tem a certeza que é justo?
Então, você está no caminho para se tornar um desportista.
- Como espectador.
1. Você repudia a alegria de jogar bem por parte dos seus oponentes?
2. Você vaia o árbitro quando este toma uma decisão que não é do seu agrado?
3. Você quer ver o seu lado a ganhar mesmo quando o não merece
4. Você discute com os espectadores que apoiam o outro lado?
Então, você não é um desportista. Tente sê-lo.
In “O Comité Olímpico Internacional e os Jogos Olímpicos da Era Moderna”(1933)
O Olimpismo e a Ética no desporto
Falar-se do maior e mais universal evento em que o binómio Ética - Desporto está presente é falar-se dos Jogos Olímpicos da Era Moderna. Trata-se, aliás, de um fenómeno cujas raízes remontam aos Jogos Olímpicos da Antiguidade, na mítica cidade de Olímpia, na Grécia, cujo primeiro registo remonta ao ano de 776 a.c.
Com efeito, já na Grécia Antiga os Jogos Olímpicos eram preparados, organizados e realizados no quadro de um escrupuloso cumprimento de regras, circunstância que porventura se pode explicar pelo facto de, à época, a unidade cultural da civilização grega se ancorar no grande significado conferido a princípios morais e sociais e a regras, escritas ou não escritas, universalmente aceites.
Ora essa mesma âncora civilizacional era a âncora dos Jogos Olímpicos: o respeito pelo indivíduo, pela sua individualidade, mas também pela sua inserção num contexto coletivo e societário; a proclamação e defesa de valores como a virtude, a tolerância, a honestidade, a justiça, a equidade. A ética e a moral, a estética e a pedagogia, estavam bem disseminados. /.../
Os primeiros “Cânones” ou as primeiras “Leis Fundamentais de Olímpica” tipificavam precisamente a interdição de comportamentos que pusessem em causa as âncoras supra referidas. Com efeito, durante os Jogos Olímpicos da Era Antiga era, designadamente, proibido: (i) Matar o adversário, nomeadamente nas provas de luta ou no boxe, fosse de forma voluntária ou negligente, sob pena de expulsão dos Jogos Olímpicos, perda do prémio e o não reconhecimento da vitória, que seria atribuída ao cadáver da vítima; (ii) Empurrar o adversário ou utilizar algum procedimento desleal; (iii) Recorrer à corrupção e à intimidação a adversários e juízes, sob pena de ser violentado com chicotes de cordas ou de correias; (iv) Manifestar-se em público, contra o veredito dos juízes.
Inevitavelmente, o restabelecimento dos Jogos Olímpicos por parte do Barão Pierre de Coubertin passou por incorporar na normação Olímpica matérias conexas com a Ética no Desporto, tendo como pano de fundo o Olimpismo e expressão prática máxima a realização dos Jogos Olímpicos. Logo em 1908, os (então denominados) “Estatutos do Comité Olímpico Internacional” incorporavam no seu objeto a prossecução das “elevadas ideias” que inspiraram os renovadores dos Jogos Olímpicos, na prossecução de um desporto moderno pelas “vias desejáveis”.
Ao longo das últimas décadas, a legislação Olímpica, progressivamente, foi tornando cada vez mais importante, a diversos títulos, a questão da Ética no Desporto. A Carta Olímpica e o Código de Ética do COI são disso um bom exemplo.
Alexandre Miguel Mestre, prefácio à edição portuguesa da Carta Olímpica (Texto adaptado)
A Ética no desporto
Numa sociedade em que os valores estão em constantes alterações no comportamento de cada indivíduo, a identificação desses mesmos valores nos jovens atletas é de vital importância para melhor se entender o processo pelo qual eles tomam determinadas decisões, em situações desportivas.
As questões associadas à ética no desporto, e mais especificamente as que dizem respeito ao espírito desportivo e à tolerância, assumem hoje uma importância acrescida. De facto, não podemos negar a importância, nos diversos âmbitos, da prática e do espectáculo desportivo, mas há que reconhecer também que eles se revelam como campos especiais, nos quais,infelizmente, os fins – ganhar – justificam quaisquer meios – violência, a corrupção, a fraude, o querer ganhar a todo e qualquer custo, o doping, a deslealdade, a ausência de espírito desportivo, etc.
A Ética Desportiva surge como uma estrutura moral que define alguns limites para o comportamento dos desportistas, de forma a preservar um sistema desportivo civilizado. É possível competir respeitando o adversário, reconhecendo o seu valor e competência, vendo-o como um oponente indispensável, sem o qual não existe competição. Vários investigadores defendem que a participação, das crianças e jovens, em actividades desportivas contribui para um desenvolvimento global e harmonioso das mesmas, pelo que se deverá dar atenção à importância do espírito desportivo como componente do processo de desenvolvimento da criança e jovem.
Ética Desportiva e Fair Play
Aristóteles conferiu a primeira versão sistemática da ética, definindo-a como sendo o compromisso efectivo do homem que o deve levar ao seu perfeccionismo pessoal, é o compromisso que se adquire consigo próprio de ser sempre mais pessoa.
No sentido etimológico a palavra ética “compreende, antes de tudo, as disposições do homem na vida, o seu carácter, os seus costumes, e, naturalmente, também a sua moral”. Outro conceito pode ser atribuído à palavra ética, o qual, no domínio da filosofia, tem por objectivo o juízo de apreciação que distingue o bem e o mal, o comportamento correcto e o incorrecto.
A ética é um ideal que tem sobressaído neste nosso mundo em constante mutação, considerando o
homem como o novo valor absoluto dos tempos modernos e a moral como parte integrante do próprio ser humano.
O desporto é invadido pelos interesses da sociedade, cada vez mais sob a influência dos valores comerciais que muitas vezes o sustentam, vai ter, como tal, cada vez mais de respeitar as regras que norteiam aqueles interesses, mesmo que isso obrigue a algumas transformações da sua prática, em certos casos enraizada através de um passado de largos anos. Ora, esses interesses estarão, por certo, muito pouco preocupados com a ética desportiva.
Não é viável pensar somente em uma ética do desporto, pois uma ética desportiva, desvinculada de
uma ética da sociedade, é impossível, uma vez que o desporto não se manifesta num vácuo social, mas acontece, sim, num contexto sócio-cultural, vinculado a uma ética da sociedade moderna.
A excessiva importância dada à vitória na prática desportiva, principalmente, a partir da profissionalização do desporto e os interesses económicos dos patrocinadores de atletas e eventos desportivos provocou profundas mudanças nas actividades desportivas, as quais passaram a ferir os objectivos estabelecidos quando da criação do desporto moderno. O doping, a violência, as injúrias aos árbitros, o fazer batota, as agressões entre os praticantes devem-se ao reforço do conceito de que a vitória é a única coisa que interessa.
O respeito pelo regulamento das modalidades é o primeiro factor que condiciona as tentativas dos participantes no sentido de serem eles os vencedores, definindo o significado de “ganhar”. Outra limitação aos esforços dos praticantes, no sentido de vencerem as competições em que participam, tem sido a noção de desportivismo ou de ética desportiva. Ideias como as do respeito pelo adversário, a recusa de situações injustas de vantagem, a modéstia no momento da vitória e o facto de se saber perder têm servido, de diferentes maneiras, para se definir aquilo que é melhor e mais civilizado, os limites razoáveis dos esforços para vencer, procurando manter as emoções, associadas às vitórias e às derrotas, sempre sob controlo, mesmo quando elas são muito intensas./.../.
Como já foi referido existem várias interpretações acerca do conceito de ética. A ética associada ao desporto adquire um novo termo Espírito Desportivo - Fair Play.
O fair play significa muito mais do que o simples respeitar das regras; mas cobre as noções de amizade, de respeito pelo outro, e de espírito desportivo, um modo de pensar, e não simplesmente um comportamento./.../.
Tal como refere o Comité Internacional para o Fair Play o espírito desportivo não é uma noção que diz apenas respeito ao desporto, mas o próprio princípio de toda a coexistência e de toda a cooperação entre os Homens. Todo o Homem deveria ter a possibilidade de fazer desporto no quadro do espírito desportivo. Todas as pessoas, seja qual for a sua raça, origem, sexo, idade e capacidades – do profissional ao diminuído físico – deveriam poder praticar desporto segundo as suas necessidades, cultura e capacidades físicas.
Para se familiarizarem com os comportamentos conformes ao espírito desportivo, os Homens devem poder fazer as suas provas em situações que lhes permitam cooperar entre si.
A prática do desporto, num quadro que respeite os princípios da ética desportiva, é, pois, uma meta em si possível, embora bastante difícil, constituindo igualmente uma forma de procurar, com a sua força e com maior abertura revelada pelo praticante desportivo, criar o respeito por valores semelhantes, num cenário de aplicação muito mais amplo.
A promoção e o desenvolvimento da ética desportiva deve-se integrar numa perspectiva de desenvolvimento cultural, educativo e cívico.
O desporto deve proporcionar o prazer e o sucesso, mas não a qualquer preço. Os atletas devem aprender, nas suas actividades desportivas, a não ultrapassar certos limites, a não enganar o concorrente, fazer batota ou mesmo provocar danos corporais. Contudo, isto só pode ser fruto de uma educação sistemática a favor do espírito desportivo.
Carla Marisa Moreira e Gui Duarte Pestana, “Algumas reflexões sobre a ética desportiva”, Revista Motricidade v. 4, n. 3 (2008)
domingo, 5 de outubro de 2014
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
Os Jogos Olímpicos na Grécia Antiga
Em 776 a.C., após deixar para trás seis adversários, o grego Corobeu venceu a única prova daquela que ficaria conhecida como a primeira edição dos Jogos Olímpicos. Contrariamente ao que se imagina, não foi uma corrida de longa distância: o cidadão da cidade de Elis percorreu apenas os 192 metros de extensão do estádio de Olímpia, na península do Peloponeso. A ideia de que a maratona foi o primeiro desporto olímpico, portanto, não passa de um mito.
Segundo esse mito, em 490 a.C., durante o período de guerras entre gregos e persas, um corredor chamado Fidípides teria atravessado quase 100 quilómetros entre Atenas e Esparta para buscar ajuda. Outra versão conta que um homem chamado Eucles percorreu a distância entre Atenas e a cidade de Maratona para participar da batalha. Com a vitória dos gregos, ele retornou a Atenas para dar a notícia, um esforço de 40 quilômetros entre ida e volta que lhe teria custado a vida.
Nigel Spivey, professor de Artes Clássicas e Arqueologia na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e autor de The Ancient Olympics (“As Olimpíadas antigas”, inédito em português), afirma que o equívoco pode ser esclarecido ao analisa-se a estrutura social da Grécia antiga. “Isso a que chamamos de corrida de longa distância nunca tinha sido considerado desporto, tendo em vista que o trabalho de levar mensagens entre as cidades era função de servos e escravos.”
Na democracia grega, apenas os homens livres eram considerados cidadãos. Entre os seus direitos estavam as decisões políticas e a participação no exército. Essa natureza bélica, enraizada na própria mitologia, também se relaciona com a atenção dada ao corpo. A prática constante de atividades físicas era a responsável por mantê-los preparados para as guerras – e acabou por dar origem às Olimpíadas. As cidades-estado só alcançavam esse status se oferecessem às suas populações um local para a prática de desportos – o estádio. A partir do século VIII a.C., a Grécia estabeleceu um calendário de competições para motivar os seus “atletas”.
A primazia de Olímpia sobre as demais cidades gregas na organização dos jogos está fundamentada na mitologia. Filho de Zeus, o herói Hércules teria inaugurado os Jogos Olímpicos como forma de comemorar o sucesso de um de seus 12 trabalhos: a limpeza dos estábulos de Audias, rei de Elis. Concretamente, sabe-se que essa lenda foi representada em Olímpia pelo escultor Fídias, que, em 440 a.C., foi o responsável pela construção do mais importante templo em homenagem a Zeus, que se transformou numa das Sete Maravilhas do mundo antigo. A estátua fez com que a cidade se tornasse o principal ponto de encontro dos festivais religiosos. E a proximidade do estádio fez com que Olímpia se destacasse como palco dos desportos.
Por mais de 40 anos, a participação foi restrita a atletas da região. Mas, entre 732 a.C. e 696 a.C., a lista de vitoriosos passou a incluir cidadãos de Atenas e Esparta. E, a partir do século VI a.C., os jogos passaram a receber inscrições de qualquer homem que falasse grego, fosse ele da Península Itálica, do Egipto ou da Ásia. “Participar de torneios como aqueles não era, de facto, apenas competir”, afirma Nigel Spivey. “Os atletas dirigiam-se para as Olimpíadas antigas com o interesse de ganhar e ser reconhecidos como os melhores.”
Ao longo dos anos, diversas cidades-estado passaram a realizar as suas próprias disputas, que também tinham uma forte dimensão religiosa. Como forma de homenagear a deusa Atena os chamados Jogos Panatenáicos foram instituídos em Atenas em 566 a.C., mas acabaram ofuscados por outros torneios. Esse novo circuito de competições, conhecido como Jogos Sagrados, era sediado em Olímpia e Delfos – a cada quatro anos – e em Corinto e Nemea – a cada dois anos.
BIGAS E SANGUE
Embora a primeira Olimpíada tenha acolhido apenas uma competição, novas categorias foram incluídas ao longo dos mais de mil anos do evento como forma de disputa política e militar. As corridas de biga, inicialmente com quatro cavalos, inauguraram um novo espaço de competições, o hipódromo, em 680 a.C., data da 25a edição dos jogos. Diversos personagens históricos protagonizaram embates nessa modalidade. O político Alcibíades, amigo e entusiasta de Sócrates, participou da corrida de 416 a.C. com nada menos que sete bigas. Segundo o historiador Tucídides, conquistou o primeiro, o segundo e o quarto lugares. Em 67 d.C., já sob o domínio romano, os gregos assistiram ao imperador Nero ser coroado vencedor mesmo sem ter cruzado a linha de chegada com a sua biga puxada por dez cavalos. Combates corporais também fizeram parte do calendário olímpico da Antiguidade. Uma das modalidades, conhecida hoje como luta greco-romana, já fazia parte do treino físico dos jovens da Grécia desde o século X a.C. Os primeiros vestígios da inclusão dessa luta numa Olimpíada datam de 400 anos depois: foram encontrados em fragmentos de uma placa de bronze. Para vencer a luta, não havia contagem de tempo. As categorias eram divididas por idade. Era preciso atirar o oponente ao chão pelo menos três vezes — sem partir os dedos do adversário.
O boxe também foi disputado. Um busto representando um lutador de 330 a.C. dá conta da violência da modalidade – há inúmeras cicatrizes na imagem de bronze. Não havia luvas, rounds ou regras claras para aliviar o sofrimento dos competidores. O orador João Crisóstomo registou em dois discursos que um tal Melancomas, morador de Caria (localizada na costa da Ásia Menor), teria sido o maior pugilista do primeiro século da era cristã.
A luta mais cruel da competição, porém, foi introduzida no calendário cerca de 100 anos depois da primeira Olimpíada. Para que se tenha ideia, os combatentes do chamado pancrácio eram punidos pelos juízes só em caso de mordeduras ou quando um deles arrancasse um olho ao adversário. O vencedor acabava venerado pela plateia mesmo quando provocava a morte do oponente.
Conjunto de cinco categorias, o pentatlo era disputado em provas de corrida, salto, luta, arremesso de disco e arremesso de dardo. Respectivamente, corridas e lutas abriam e encerravam o conjunto de provas – com algumas regras próprias, ambas as categorias também eram disputadas fora do pentatlo. Na corrida, a distância mais curta envolvia um trajeto de cerca de 200 metros, equivalente ao comprimento dos estádios.
Na mais longa, os atletas disputavam a liderança em 24 voltas pelo perímetro do local ou 5 mil metros.
Os jogos da Antiguidade eram violentos. Muitas vezes, serviram para simular batalhas militares. A morte de atletas chegou a ser registada. A despeito das condições climáticas e mesmo de higiene, sabe-se que os atletas competiam nus. Historiadores antigos registram que essa tradição teria começado em 720 a.C., quando um indivíduo chamado Orsipos, de Megara, venceu uma prova de corrida ao notar que a sua performance seria melhor se ele tirasse as suas roupas pelo trajeto. A própria palavra “ginástica” tem o termo “nudismo” em seu radical grego gymnos – o que explicaria a proibição de mulheres, fosse como atletas, fosse como espectadoras.
Por mais sangue que tenha sido derramado, os atletas jamais abriram mão de alguma ambição pela vitória. Nem mesmo durante as guerras, ou quando a Grécia esteve sob domínio dos macedônios e dos romanos, as competições desportivas deixaram de ser realizadas. Os jogos, contudo, entraram em declínio na segunda metade do século IV.
Durante o domínio do imperador Teodósio, em 380 o cristianismo foi anunciado como religião oficial do Império Romano, fazendo com que, 13 anos depois, todos os centros desportivos e religiosos que abrigavam festas pagãs fossem fechados. Era o fim dos Jogos Olímpicos da Antiguidade, que só viriam a ganhar uma versão moderna cerca de l 500 anos mais tarde.
CRONOLOGIA
- 2500/2000 a. C. – Primeiras competições olímpicas
- 580 a.C. – Sólon promulga uma lei em Atenas, dispondo que cada vencedor olímpico recebesse 500 dracmas
- 520 a. C. – O programa dos Jogos Olímpicos se estabiliza, com sete dias de duração
- 420 a. C. – Exclusão de Esparta dos Jogos Olímpicos
- 388 a. C. – Na XCVIII Olimpíada, o primeiro caso de alteração de resultado: o pugilista Eupolos compra três adversários para ganhar o título
- 313 a. C. e 210 a.C. – Saques contra a cidade de Olímpia
- 395 – Os godos destroem Olímpia
- 1896 – O barão de Coubertain recria em Atenas as Olimpíadas
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
A Política e o Desporto
Quando o Desporto é uma arma de Propaganda Política
O desporto na Alemanha nazi
Quando Adolf Hitler morreu em 1945, Martin Luther King Jr. ainda não era um conhecido activista político nos EUA. O ditador nunca ouviu falar no norte-americano mas tinham algo em comum: um sonho. Hitler acreditava que o ariano era um povo superior e mesmo antes da II Guerra Mundial, quis demonstrar a superioridade dos germânicos durante os Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. O ideal
Hitler não desistiu e continuou a fazer do desporto uma prioridade. Joseph Goebbels, ministro da Propaganda, admitia que “o desporto alemão tem uma única tarefa: fortalecer o carácter do povo germânico, enchendo-o com o espírito competitivo e a camaradagem necessária para a luta pela existência”. As derrotas de Hitler continuaram nos anos seguintes. Em 1937 foi a vez do ténis, com a grande figura alemã, Gottfried von Cramm, a sair derrotada das finais de Wimbledon (0-3) e do US Open (2-3), ambas contra o norte-americano Don Budge. Em 1938, no futebol e no boxe. Num Alemanha-Áustria, organizado para marcar a integração da equipa austríaca na alemã e com uma combinação para que o jogo terminasse com um empate, Matthias Sindelar vestiu o papel de rebelde. Marcou um dos golos da vitória austríaca (2-0) e celebrou efusivamente em frente aos nazis. No boxe, Max Schmeling foi derrotado por Joe Louis no Yankee Stadium em Nova Iorque perante 70 mil pessoas. Foram humilhações atrás de humilhações. Hitler queria fazer do desporto um sinal de superioridade mas fracassou. Era um prenúncio do que voltaria a acontecer no futuro.
Black Power e Setembro Negro
Podem ser black e negro mas não tiveram nada a ver. O primeiro, em 1968, foi um movimento utilizado pelos afro-americanos nos Jogos Olímpicos da Cidade do México para apoiar a campanha que se vivia nos Estados Unidos pelos direitos civis e pela igualdade. Atingiu o ponto alto quando Tommie Smith e John Carlos fizeram a saudação do movimento durante a cerimónia de entrega de medalhas.
Em 1972, foram os Jogos Olímpicos de Munique a estar em destaque. A prova ficou marcada pelo sequestro e assassinato de 11 membros da equipa olímpica de Israel, por parte do grupo palestiniano Setembro Negro.
O desporto na Alemanha nazi
Quando Adolf Hitler morreu em 1945, Martin Luther King Jr. ainda não era um conhecido activista político nos EUA. O ditador nunca ouviu falar no norte-americano mas tinham algo em comum: um sonho. Hitler acreditava que o ariano era um povo superior e mesmo antes da II Guerra Mundial, quis demonstrar a superioridade dos germânicos durante os Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. O ideal
de Pierre de Coubertin foi levado à letra por Hitler, que queria, à força, demonstrar a grandeza da nação. Os arianos tinham de ser mais altos, mais fortes, mais rápidos. Simplesmente melhores. Para prová-lo a todo o mundo, houve a primeira transmissão televisiva.
O recrutamento era decisivo. Era preciso contar com todos os alemães, mesmo que eles não correspondessem ao sonho de Hitler. Helen Mayer foi uma delas. No currículo contava com uma medalha de ouro em esgrima, mas ser judia tinha feito com que o partido nacionalista lhe retirasse a cidadania
alemã. Para participar em 1936, foi aberta uma excepção (esquecida pouco depois). Num mundo fechado como na década de 30, a visibilidade dos Jogos Olímpicos tinha um factor decisivo no mundo. Hitler teve uma pequena vitória: a Alemanha foi de facto o país com mais medalhas (89 contra as 56 dos Estados Unidos), mas as derrotas localizadas, como o domínio de Jesse Owens, um afro-americano, no atletismo foi visto como uma humilhação.
Hitler não desistiu e continuou a fazer do desporto uma prioridade. Joseph Goebbels, ministro da Propaganda, admitia que “o desporto alemão tem uma única tarefa: fortalecer o carácter do povo germânico, enchendo-o com o espírito competitivo e a camaradagem necessária para a luta pela existência”. As derrotas de Hitler continuaram nos anos seguintes. Em 1937 foi a vez do ténis, com a grande figura alemã, Gottfried von Cramm, a sair derrotada das finais de Wimbledon (0-3) e do US Open (2-3), ambas contra o norte-americano Don Budge. Em 1938, no futebol e no boxe. Num Alemanha-Áustria, organizado para marcar a integração da equipa austríaca na alemã e com uma combinação para que o jogo terminasse com um empate, Matthias Sindelar vestiu o papel de rebelde. Marcou um dos golos da vitória austríaca (2-0) e celebrou efusivamente em frente aos nazis. No boxe, Max Schmeling foi derrotado por Joe Louis no Yankee Stadium em Nova Iorque perante 70 mil pessoas. Foram humilhações atrás de humilhações. Hitler queria fazer do desporto um sinal de superioridade mas fracassou. Era um prenúncio do que voltaria a acontecer no futuro.Black Power e Setembro Negro
Mantendo a tradição, os Jogos Olímpicos continuaram a ser uma maneira de marcar uma posição. Por isso, na década de 1980, em plena Guerra Fria, os norte-americanos boicotaram Moscovo-1980 e em resposta os soviéticos falharam a presença em Los Angeles-1984. Mais recentemente, em Pequim-2008, a China quis mostrar ao mundo que tinha um enorme potencial desportivo e surpreendeu com o domínio nas medalhas.
Sobre O setembro negro: "O dia em que mataram o espírito olímpico"
O desporto e a luta contra o Apartheid
A África do Sul soube aproveitar o desporto da melhor maneira para promover um reencontro político e social. Nelson Mandela viu no Mundial de râguebi a o portunidade perfeita para mostrar ao mundo que o apartheid era passado e que os dois povos podiam viver em sintonia e partilhar interesses.
O momento foi um ponto de viragem. Os sul-africanos foram campeões mundiais e mais tarde a campanha ficou eternizada por Morgan Freeman no papel de Nelson Mandela no filme “Invictus”.
O exemplo do Futebol
Como pode um político usar um futebolista para fazer campanha? Portugal sabe o que isso é. A 25 de Setembro de 2009, José Sócrates foi visto a tomar o pequeno-almoço com Luís Figo, que mais tarde manifestou o seu apoio ao primeiro-ministro de então. O caso tornou-se polémico com a notícia, depois desmentida, de um alegado pagamento de 750 mil euros para que o ex-internacional português participasse na campanha de Sócrates.
Em 1998, o choque de forças foi mundial quando EUA e Irão se defrontaram no Mundial de futebol. O jogo foi visto como de segurança máxima e os asiáticos saíram com um triunfo (2-1). Ainda assim, esteve longe de ter a mesma importância da “Guerra das 100 Horas”, que opôs as Honduras a El Salvador. Em 1969, um quinto da população que vivia nas Honduras era natural de El Salvador. Os hondurenhos tinham implementado reformas na imigração e o ambiente de tensão era sufocante. Por isso, os jogos entre as duas selecções, a 8 e 15 de Junho foram marcados por violência. Depois da primeira mão, uma rapariga de El Salvador suicidou-se com um tiro na cabeça e foi vista como mártir, com o funeral transmitido na televisão. A 26 de Junho (dia do playoff na Cidade do México com triunfo para El Salvador por 3-2), os salvadorenhos cortaram os laços com as Honduras e os conflitos na fronteira tornaram-se inevitáveis a 14 de Julho. Duraram 100 horas e nenhum dos países saiu a ganhar.
O poder... e o desporto
"O poder, hoje, é mais fácil de obter, mas difícil de manter... e mais fácil de perder"
(Moisés Natan)
Em democracia, o poder está diluído por muitos centros de decisão, é mais difícil obter consensos e por isso é mais difícil ser-se obedecido, ou seja, hoje, o que interessa é saber aquilo que um "líder" quer fazer mais do que aquilo que ele faz, porque nem sempre o que ele fez era aquilo que ele queria fazer. Significa isto que o poder, hoje, em democracia, está muito limitado, ou por razões orçamentais ou por pressões políticas de lobbies, muito poderosos, que condicionam, de forma decisiva, a capacidade da tomada de decisões que mexam com interesses instalados.
Podemos então falar de contrapoderes de não-poderes e do poder para concluir que a noção de poder que vinda do antigo regime há muito desapareceu e já não é mais a capacidade de obrigar terceiros para passar a ser "a capacidade de convencer terceiros", o que significa que a democracia impõe regras e procedimentos que quase impossibilitam a concretização do programa de acção anunciado, o que faz que os políticos fiquem, publicamente, desacreditados, objectivo prioritário das oposições. Mas há o princípio da reciprocidade a não esquecer, ou seja, quando a oposição ascender ao poder acontecer-lhe-á o mesmo, o que quer dizer: "Quem com ferro mata, com ferro morre."
/.../
Ora, enquanto estes fenómenos acontecem nas sociedades modernas, o desporto afirma-se cada vez mais como um acto livre e independente que só depende da vontade do indivíduo e do seu mérito, que o pode levar ao topo da escala do êxito e da fama e que aparece, ou pode aparecer, como uma oportunidade de um poder independente, livre, solidário, democrático, porque ali (no desporto) todos são iguais, e onde as pessoas atingem posições de relevo devido ao seu mérito, ao seu valor, e não, como na sociedade fora do desporto, por favores, por batota, por cunhas, por corrupção, etc. etc.
É evidente que estamos a falar de todo aquele desporto que não seja profissional, porque nesse também há política, interesses lobbies e corrupção.
Mas o verdadeiro desporto está hoje a ser uma tentação para o poder político no sentido de ser aproveitado para a propaganda política do regime, como aliás o fez A. Hitler.
É pois necessário que as associações e as federações desportivas, que têm como dirigentes homens "bons" e "dedicados", que trabalham pelo desporto, sem intuitos lucrativos, estejam atentas às intenções do poder político, seja ele da cor que for, para que conserve a sua independência e pureza originais e seja de facto um contrapoder que venha a afirmar-se, no futuro, como um poder que limite a acção, ou acções, do Governo, quando elas não defendam os interesses do verdadeiro desporto.
Mário Bacelar Begonha
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
'Invictus'

Texto 1
Invictus
Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.
In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.
Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.
It matters not how strait the gate,
How charged with punishment the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.
________
Invictus
De dentro da noite que me rodeia
Negra como um poço de lado a lado
Agradeço aos deuses que possam existir
pela minha alma indomável
Sob as garras cruéis das circunstâncias
eu não tremo e nem me desespero
Sob os duros golpes do acaso
A minha cabeça sangra, mas continua erguida
Para lá deste lugar de lágrimas e ira,
Nada mais se vê que os horrores da sombra.
Mas mesmo assim a ameaça dos anos,
Encontra-me e me encontrar-me-á, sem medo.
Não importa quão estreito o portão
Quão repleta de castigo a sentença,
Eu sou o senhor de meu destino:
Eu sou o capitão de minha alma.
William Ernest Henley
_______________
Texto 2
Introdução ao filme ‘Invictus’
“Durante o tempo em que esteve na prisão de Robben Island, Nelson Mandela encontrou no poema "Invictus", a força necessária para continuar vivo e manter acesa a chama da luta contra a desigualdade instituída pelo regime do Apartheid.
Escrito pelo poeta inglês William Ernest Henley em 1875, o poema foi o grande companheiro de Mandela na pequena cela 4 da ala B de Robben Island. Condenado a trabalhos forçados, foi na cadeia localizada numa ilha a 11 quilómetros da Cidade do Cabo, que o líder da luta contra o Apartheid passou 18 dos 27 anos que esteve preso. Mandela contou que, toda vez que fraquejava, lia e relia o poema para aplacar o sofrimento e buscar forças para seguir em frente.
‘Invictus’ também é o título do filme realizado por Clint Eastwood, que conta a história da conquista do título mundial de Rugby pela seleção da África do Sul durante o Campeonato Mundial realizado naquele país. Durante a competição, Mandela entrega o poema ao capitão da seleção sul-africana, para motivá-lo a ganhar a competição. O então presidente percebia que a vitória poderia unir o país, que ainda enfrentava a segregação racial.”
Texto 3
Comentário do filme ‘Invictus’
"O amor da democracia é o da igualdade."
Barão de Montesquieu
Vi novamente o filme "Invictus" (2009), uma história real sobre o início do governo de Nelson Mandela. Confesso que me emocionei tanto quanto da primeira vez. Este filme é baseado no livro "Conquistando o Inimigo" de John Carlin. O "inimigo" de Mandela neste caso era a minoria "branca" e poderosa da África do Sul.
Ouvimos muito sobre o regime do Apartheid, mas vendo o filme, ele ganha uma nova dimensão e conseguimos parcialmente imaginar o quão desafiador o trabalho do Presidente Nelson Mandela foi, especialmente logo após ser eleito. Ele teve que encarar o desafio de implantar um regime democrático num país completamente dividido e à beira de uma guerra civil.
Através do rugby, Mandela inicia algo aparentemente impossível: estabelecer a união de uma nação tão dividida e aparentemente "diferente".
Algumas frases do Mandela ecoaram na minha alma e espero poder um dia viver como ele, sem mágoa em relação aos que o prejudicaram (27 anos preso) e principalmente sem nunca desistir dos seus sonhos e desafios.
O Apartheid (separação) foi um regime de segregação racial adotado de 1948 a 1994 pelos sucessivos governos do Partido Nacional na África do Sul, no qual os direitos da grande maioria dos habitantes foram cerceados pela minoria branca. A segregação racial na África do Sul teve início ainda no período colonial, mas o apartheid foi introduzido como política oficial após as eleições gerais de 1948. A nova legislação dividia os habitantes em grupos raciais ("negros", "brancos", "de cor", e "indianos").
Nessa altura, o segregou a saúde, a educação e os outros serviços públicos, fornecendo aos negros serviços inferiores aos dos brancos.
O apartheid trouxe violência e um significativo movimento de resistência interna, bem como um longo embargo comercial contra a África do Sul. Uma série de revoltas populares e protestos levaram à repressão violenta da oposição e a detenção de líderes anti-apartheid.
Reformas no regime durante a década de 1980 não conseguiram conter a crescente oposição, e em 1990 o presidente Frederik Willem de Klerk iniciou negociações para acabar com o Apartheid, o que culminou com a realização de eleições multirraciais e democráticas em 1994, que foram vencidas pelo Congresso Nacional Africano, sob a liderança de Nelson Mandela.
Algumas palavras de Nelson Mandela:
“O perdão liberta a alma. Ele remove o medo. Por esta razão é uma "arma" tão poderosa.”
"Ninguém nasce a odiar outra pessoa pela cor da sua pele, pela sua origem ou ainda pela sua religião.
Para odiar, as pessoas precisam de aprender, e se podem aprender a odiar, também podem ser ensinadas a amar."
_____________
Atividades:
I – Com base nos textos desta ficha, elaborem um comentário do filme ‘Invictus’, desenvolvendo os seguintes tópicos:
a) A importância da igualdade em democracia;
b) a necessidade da luta contra o racismo e todas as formas de intolerância;
c) o exemplo de Nelson Mandela;
d) uma análise do poema ‘Invictus’;
e) a relação entre a política e o desporto/ a relação entre a democracia e o desporto.
O comentário deve ter um mínimo de 250 palavras.
domingo, 21 de setembro de 2014
A Democracia e os Partidos Políticos
Texto 1 - A democracia e os partidos
políticos
O art. 10.º, n.º 2, da Constituição da República Portuguesa
determina que os “partidos políticos concorrem para a organização e expressão
da vontade popular”. A expressão “concorrem” significa que os partidos
contribuem, no seu conjunto, “para a organização e expressão da vontade
popular”.
Num país com cerca de dez milhões de habitantes seria
impraticável que todas as decisões políticas (incluindo as leis) implicassem o
recurso ao referendo. Daí que o mesmo art. 10.º, agora no seu número 1, refira
que o “povo exerce o poder político através do sufrágio universal […] e das demais
formas previstas na Constituição”.
Deste modo, o povo elege “representantes” que se tornarão,
por esta via, titulares de órgãos de soberania (deputados, membros do Governo,
Presidente da República) com o poder de tomar decisões políticas (incluindo criar
leis), com o poder de fazer escolhas em nome do povo. É este o significado de
democracia representativa.
E como se escolhem as pessoas para desempenhar estes cargos?
Aqueles que estão dispostos a candidatar-se a tais funções, bem como as pessoas
que os querem ajudar, associam-se em torno de um sistema coerente de valores,
ideias e objetivos, uma ideologia, e formam um partido político. Assim, o povo
participa na decisão política essencialmente através dos seus representantes.
Estes representantes, porém, devem atuar de acordo com o
mandato que lhe foi conferido pelos eleitores, mandato esse que consistirá no
programa apresentado ao eleitorado e que este sufragou através do voto. Este
programa representa uma proposta que cada partido faz ao eleitorado baseada na
sua ideologia política.
O que acontece hoje em Portugal é algo diferente, porém. Os
partidos não defendem aquilo que consideram correto e adequado para o país de
acordo com a sua ideologia política, mas limitam-se a berrar histericamente nos
meios de comunicação social aquilo que eles acreditam que as pessoas querem
ouvir.
O discurso político (o modo como é construída a mensagem
destinada aos eleitores) deixou de ser persuasivo e passou a ser manipulador,
com recurso à meia verdade, ou mesmo à mentira pura e dura, à
descontextualização, à exacerbação da histeria colectiva; um discurso onde não
existe lugar para a decência e a ética. Tudo com a ajuda da comunicação social.
Vale tudo para ganhar eleições.
Salvo algumas exceções, os políticos deixaram de defender
uma ideologia. Sem a ideologia o debate político perde sentido; ficam os
interesses individuais (ocultos) e o insulto. Quem tem ideias e não tem receio
de as defender (mesmo contra o pensamento dominante) foge da política, porque
não se quer “sujar” (quando a função política devia ser a função mais nobre de
qualquer sociedade), não quer ver a sua vida privada escrutinada e exposta nos
jornais e nas televisões, nem quer ser difamado pelos medíocres do costume.
Se aspiramos a algo mais do que ter um “dono justo” devemos
ser exigentes, antes que seja tarde demais.
Agostinho Guedes
(Texto Adaptado)
Texto 2 - O que é a
esquerda e a direita?
Direita e esquerda são posições políticas originárias do
lugar ocupado pelos representantes da sociedade francesa nas cadeiras da
Assembleia Nacional Constituinte, no tempo de Luís XVI, nos anos finais do Antigo
Regime, no século XVIII. Os representantes dos nobres, burgueses ricos e
elementos do clero ficavam à direita. Eram os que não queriam grandes
alterações na ordem social e política, que os beneficiava por meio de um sistema
de privilégios.
Os representantes da pequena e média burguesia e de pessoas
simpáticas a tais sectores ficavam à esquerda. Eram os que desejavam o fim dos
privilégios e uma reforma política e social que, segundo eles, tiraria a França
da crise em que se encontrava, e em função da qual o rei havia convocado a
Assembleia.
Com o tempo e por influência cultural e política da França,
essa terminologia tipicamente francesa ganhou o mundo, sendo adotada inicialmente
pelos jornais tendo-se, depois, generalizado. Desse modo, historicamente a
expressão “direita política” passou a identificar os partidos dos
economicamente privilegiados, enquanto que a expressão “esquerda política”
ficou conotada com os partidos dos menos privilegiados.
Assim, em termos históricos, direita e esquerda não se
definiram inicialmente pelas relações entre indivíduo, sociedade e estado, como
em geral tendemos a pensar hoje em dia, mas segundo uma divisão entre a
“política dos ricos” e a “política dos pobres”. No entanto, na política
europeia, os ricos diziam preferir um estado que viesse a garantir certos
serviços essenciais, mas sem interferir muito diretamente nas forças económicas
e principalmente no mercado. Por sua vez, os pobres queriam subsídios, pagos por
meio de impostos e administrados pelo estado, para a amenização da má sorte na
lotaria do nascimento.
Desse modo, a direita defendia uma posição alheia ao
crescimento do estado na sociedade, enquanto que a esquerda se tornou uma
posição em favor da maior participação do estado na vida social.
No decorrer do século 20, fenómenos ligados ao imperialismo
alteraram um pouco esse quadro. Alemanha, Japão e Itália desenvolveram um
desejo de participar do comércio internacional de forma imperialista, mas esse
tipo de posição já tinha dono. Inglaterra, França e, de certo modo, os Estados
Unidos já haviam repartido o mundo em três, exercendo toda a forma de
neocolonialismo. A ideia que Alemanha, Japão e Itália tiveram, então, foi uma
só: quebrariam a ordem liberal interna (democrática) dos seus estados e os
colocariam ao serviço de algumas empresas e de alguns grupos de pessoas ricas,
com vista terem empresas poderosas, capazes de competir com as empresas
privadas das democracias liberais. Além disso, sempre pensando que talvez não
pudessem competir de igual para igual, esses países militarizaram-se e quiseram
abrir espaço para o comércio com os povos neocolonizados com base da força.
Iniciaram então a invasão de países próximos, em busca de um confronto direto
com aqueles que então dominavam comercial e industrialmente o mundo. Isso
resultou na II Guerra Mundial.
Nasceu dessa posição militarista aquilo que veio a tornar-se
genericamente a “política do fascismo”. Uma potência fascista, então, passou a
ser aquela constituída como um estado totalitário militarizado, protetor das
empresas capitalistas e empresas estatais do seu país, baseado numa hierarquia
de poder e privilégios, dos quais participariam não todos os ricos, mas
especialmente aqueles que fossem simpatizantes do governo fascista, comandado
por um ditador. Esse tipo de posição assumiu-se como “de direita”, é claro, uma
vez que se tratava de exercer uma política voltada para os sectores dominantes
e ao mesmo tempo para o estado, sendo que este se punha como protetor e
protegido desse grupo social, ainda que, é claro, se proclamasse protetor de
toda a nação.
No século 20, antes mesmo do surgimento do fascismo, a
esquerda também ganhou uma vertente totalitária. A social-democracia defendia a
participação do estado na economia em função da melhoria da vida dos mais
pobres. Trabalhava, no entanto, com a perspectiva de reformas que apontavam
para uma sociedade socialista, assumido como um objetivo posto num horizonte
distante, às vezes quase assumidamente utópico. Um sector da esquerda chamou a
esse tipo de política de “projeto reformista”, e acusou-o de ser incapaz de
realizar o socialismo (o regime que encaminharia para o comunismo, com o fim
das classes sociais). Aliás, esses dissidentes passaram a dizer que a
social-democracia nem mais queria o socialismo, mas apenas o próprio
capitalismo continuamente reformado. O socialismo, ainda segundo esses
dissidentes, teria que ser instituído por meio de uma revolução que colocaria
toda a economia nas mãos do estado, de modo que este, então, organizaria a
produção, a circulação e o consumo dos bens. Além disso, o estado retiraria os
meios de produção das mãos dos ricos, e com isso iniciaria a transformação de
toda a sociedade numa “nação de trabalhadores”. Sendo todos só trabalhadores,
não haveria mais sentido falar em classes sociais, e eis que se estaria aí já
no interior do socialismo. A mundialização desse processo eliminaria as classes
sociais de todos os lugares, os poderes organizativos de cada estado
tornar-se-iam poderes regionais de um só grupo – a humanidade – e isso
implicaria o fim dos estados nacionais. Estar-se-ia, então, no comunismo.
Esse Estado socialista que estaria a encaminhar-se para o
comunismo, exerceria uma ditadura transitória, revolucionária (a “ditadura do
proletariado”), para poder retirar à força os meios de produção dos seus donos.
Feito isso, esse estado ir-se-ia encaminhando do socialismo para o comunismo, a
sociedade sem classes. Ao menos nas vozes dos seus fundadores, essa situação
intermediária, e muito menos a situação final, não se configurariam como
regimes totalitários. Pelo contrário, o comunismo seria o regime da mais alta e
perfeita democracia, ainda que uma democracia sem partidos políticos e sem
dissidências.
Não havendo mais ricos e pobres não haveria sentido falar em
partidos ou divergências internas numa tal sociedade e, portanto, o termo
“política” perderia o sentido, pois não haveria mais disputas pelo poder.
Paulo Ghiraldelli
http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2013-09-25/uma-licao-basica-de-politica-o-que-e-direita-e-esquerda.html (Texto adaptado)
Atividades:
Trabalho de Grupo
I – Elaborar
um mapa conceptual de cada um dos textos.
II
Para responder às questões seguintes devem basear-se nos
textos, mas devem procurar outras fontes.
1. O que são
os partidos políticos?
2. Podemos
considerar que os partidos são fundamentais em democracia? Justifique.
3. Os
partidos políticos, hoje em dia, estão a cumprir uma função positiva na nossa
democracia? Justifique.
4.
O que é a direita e a esquerda? Explique estes
conceitos tendo em conta a forma como as diversas ideologias políticas encaram
a relação do estado com os indivíduos.
III
Elaboração de um projeto de constituição de um partido
político democrático, com as seguintes componentes:
A – Descrição da ideologia do partido: – a)
distribuição da riqueza; b) a dimensão do estado na sociedade; c) a relação de
Portugal com a União Europeia; d) a integração do partido no espectro político;
e) Identificação dos valores fundamentais defendidos pelo partido.
B – Descrição da base sociológica do partido: – a)
bases de apoio; b) eleitorado; c) mudanças a efetuar na organização da
sociedade.
C – Elaboração do logótipo do partido e duma síntese
descritiva do mesmo.
IV –
Elaboração duma campanha eleitoral do partido para concorrer às eleições
legislativas de 2015.
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