quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Os Jogos Olímpicos na Grécia Antiga

Em 776 a.C., após deixar para trás seis adversários, o grego Corobeu venceu a única prova daquela que ficaria conhecida como a primeira edição dos Jogos Olímpicos. Contrariamente ao que se imagina, não foi uma corrida de longa distância: o cidadão da cidade de Elis percorreu apenas os 192 metros de extensão do estádio de Olímpia, na península do Peloponeso. A ideia de que a maratona foi o primeiro desporto olímpico, portanto, não passa de um mito.
Segundo esse mito, em 490 a.C., durante o período de guerras entre gregos e persas, um corredor chamado Fidípides teria atravessado quase 100 quilómetros entre Atenas e Esparta para buscar ajuda. Outra versão conta que um homem chamado Eucles percorreu a distância entre Atenas e a cidade de Maratona para participar da batalha. Com a vitória dos gregos, ele retornou a Atenas para dar a notícia, um esforço de 40 quilômetros entre ida e volta que lhe teria custado a vida.
Nigel Spivey, professor de Artes Clássicas e Arqueologia na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e autor de The Ancient Olympics (“As Olimpíadas antigas”, inédito em português), afirma que o equívoco pode ser esclarecido ao analisa-se a estrutura social da Grécia antiga. “Isso a que chamamos de corrida de longa distância nunca tinha sido considerado desporto, tendo em vista que o trabalho de levar mensagens entre as cidades era função de servos e escravos.”
Na democracia grega, apenas os homens livres eram considerados cidadãos. Entre os seus direitos estavam as decisões políticas e a participação no exército. Essa natureza bélica, enraizada na própria mitologia, também se relaciona com a atenção dada ao corpo. A prática constante de atividades físicas era a responsável por mantê-los preparados para as guerras – e acabou por dar origem às Olimpíadas. As cidades-estado só alcançavam esse status se oferecessem às suas populações um local para a prática de desportos – o estádio. A partir do século VIII a.C., a Grécia estabeleceu um calendário de competições para motivar os seus “atletas”.
A primazia de Olímpia sobre as demais cidades gregas na organização dos jogos está fundamentada na mitologia. Filho de Zeus, o herói Hércules teria inaugurado os Jogos Olímpicos como forma de comemorar o sucesso de um de seus 12 trabalhos: a limpeza dos estábulos de Audias, rei de Elis. Concretamente, sabe-se que essa lenda foi representada em Olímpia pelo escultor Fídias, que, em 440 a.C., foi o responsável pela construção do mais importante templo em homenagem a Zeus, que se transformou numa das Sete Maravilhas do mundo antigo. A estátua fez com que a cidade se tornasse o principal ponto de encontro dos festivais religiosos. E a proximidade do estádio fez com que Olímpia se destacasse como palco dos desportos.
Por mais de 40 anos, a participação foi restrita a atletas da região. Mas, entre 732 a.C. e 696 a.C., a lista de vitoriosos passou a incluir cidadãos de Atenas e Esparta. E, a partir do século VI a.C., os jogos passaram a receber inscrições de qualquer homem que falasse grego, fosse ele da Península Itálica, do Egipto ou da Ásia. “Participar de torneios como aqueles não era, de facto, apenas competir”, afirma Nigel Spivey. “Os atletas dirigiam-se para as Olimpíadas antigas com o interesse de ganhar e ser reconhecidos como os melhores.”
Ao longo dos anos, diversas cidades-estado passaram a realizar as suas próprias disputas, que também tinham uma forte dimensão religiosa. Como forma de homenagear a deusa Atena os chamados Jogos Panatenáicos foram instituídos em Atenas em 566 a.C., mas acabaram ofuscados por outros torneios. Esse novo circuito de competições, conhecido como Jogos Sagrados, era sediado em Olímpia e Delfos – a cada quatro anos – e em Corinto e Nemea – a cada dois anos.

BIGAS E SANGUE
Embora a primeira Olimpíada tenha acolhido apenas uma competição, novas categorias foram incluídas ao longo dos mais de mil anos do evento como forma de disputa política e militar. As corridas de biga, inicialmente com quatro cavalos, inauguraram um novo espaço de competições, o hipódromo, em 680 a.C., data da 25a edição dos jogos. Diversos personagens históricos protagonizaram embates nessa modalidade. O político Alcibíades, amigo e entusiasta de Sócrates, participou da corrida de 416 a.C. com nada menos que sete bigas. Segundo o historiador Tucídides, conquistou o primeiro, o segundo e o quarto lugares. Em 67 d.C., já sob o domínio romano, os gregos assistiram ao imperador Nero ser coroado vencedor mesmo sem ter cruzado a linha de chegada com a sua biga puxada por dez cavalos. Combates corporais também fizeram parte do calendário olímpico da Antiguidade. Uma das modalidades, conhecida hoje como luta greco-romana, já fazia parte do treino físico dos jovens da Grécia desde o século X a.C. Os primeiros vestígios da inclusão dessa luta numa Olimpíada datam de 400 anos depois: foram encontrados em fragmentos de uma placa de bronze. Para vencer a luta, não havia contagem de tempo. As categorias eram divididas por idade. Era preciso atirar o oponente ao chão pelo menos três vezes — sem partir os dedos do adversário.
O boxe também foi disputado. Um busto representando um lutador de 330 a.C. dá conta da violência da modalidade – há inúmeras cicatrizes na imagem de bronze. Não havia luvas, rounds ou regras claras para aliviar o sofrimento dos competidores. O orador João Crisóstomo registou em dois discursos que um tal Melancomas, morador de Caria (localizada na costa da Ásia Menor), teria sido o maior pugilista do primeiro século da era cristã.
A luta mais cruel da competição, porém, foi introduzida no calendário cerca de 100 anos depois da primeira Olimpíada. Para que se tenha ideia, os combatentes do chamado pancrácio eram punidos pelos juízes só em caso de mordeduras ou quando um deles arrancasse um olho ao adversário. O vencedor acabava venerado pela plateia mesmo quando provocava a morte do oponente.
Conjunto de cinco categorias, o pentatlo era disputado em provas de corrida, salto, luta, arremesso de disco e arremesso de dardo. Respectivamente, corridas e lutas abriam e encerravam o conjunto de provas – com algumas regras próprias, ambas as categorias também eram disputadas fora do pentatlo. Na corrida, a distância mais curta envolvia um trajeto de cerca de 200 metros, equivalente ao comprimento dos estádios.
Na mais longa, os atletas disputavam a liderança em 24 voltas pelo perímetro do local ou 5 mil metros.
Os jogos da Antiguidade eram violentos. Muitas vezes, serviram para simular batalhas militares. A morte de atletas chegou a ser registada. A despeito das condições climáticas e mesmo de higiene, sabe-se que os atletas competiam nus. Historiadores antigos registram que essa tradição teria começado em 720 a.C., quando um indivíduo chamado Orsipos, de Megara, venceu uma prova de corrida ao notar que a sua performance seria melhor se ele tirasse as suas roupas pelo trajeto. A própria palavra “ginástica” tem o termo “nudismo” em seu radical grego gymnos – o que explicaria a proibição de mulheres, fosse como atletas, fosse como espectadoras.
Por mais sangue que tenha sido derramado, os atletas jamais abriram mão de alguma ambição pela vitória. Nem mesmo durante as guerras, ou quando a Grécia esteve sob domínio dos macedônios e dos romanos, as competições desportivas deixaram de ser realizadas. Os jogos, contudo, entraram em declínio na segunda metade do século IV.
Durante o domínio do imperador Teodósio, em 380 o cristianismo foi anunciado como religião oficial do Império Romano, fazendo com que, 13 anos depois, todos os centros desportivos e religiosos que abrigavam festas pagãs fossem fechados. Era o fim dos Jogos Olímpicos da Antiguidade, que só viriam a ganhar uma versão moderna cerca de l 500 anos mais tarde.
CRONOLOGIA
  • 2500/2000 a. C. – Primeiras competições olímpicas
  • 580 a.C. – Sólon promulga uma lei em Atenas, dispondo que cada vencedor olímpico recebesse 500 dracmas
  • 520 a. C. – O programa dos Jogos Olímpicos se estabiliza, com sete dias de duração
  • 420 a. C. – Exclusão de Esparta dos Jogos Olímpicos
  • 388 a. C. – Na XCVIII Olimpíada, o primeiro caso de alteração de resultado: o pugilista Eupolos compra três adversários para ganhar o título
  • 313 a. C. e 210 a.C. – Saques contra a cidade de Olímpia
  • 395 – Os godos destroem Olímpia
  • 1896 – O barão de Coubertain recria em Atenas as Olimpíadas 






segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A Política e o Desporto

Quando o Desporto é uma arma de Propaganda Política

O desporto na Alemanha nazi
Quando Adolf Hitler morreu em 1945, Martin Luther King Jr. ainda não era um conhecido activista político nos EUA. O ditador nunca ouviu falar no norte-americano mas tinham algo em comum: um sonho. Hitler acreditava que o ariano era um povo superior e mesmo antes da II Guerra Mundial, quis demonstrar a superioridade dos germânicos durante os Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. O ideal
de Pierre de Coubertin foi levado à letra por Hitler, que queria, à força, demonstrar a grandeza da nação. Os arianos tinham de ser mais altos, mais fortes, mais rápidos. Simplesmente melhores. Para prová-lo a todo o mundo, houve a primeira transmissão televisiva.
O recrutamento era decisivo. Era preciso contar com todos os alemães, mesmo que eles não correspondessem ao sonho de Hitler. Helen Mayer foi uma delas. No currículo contava com uma medalha de ouro em esgrima, mas ser judia tinha feito com que o partido nacionalista lhe retirasse a cidadania
alemã. Para participar em 1936, foi aberta uma excepção (esquecida pouco depois). Num mundo fechado como na década de 30, a visibilidade dos Jogos Olímpicos tinha um factor decisivo no mundo. Hitler teve uma pequena vitória: a Alemanha foi de facto o país com mais medalhas (89 contra as 56 dos Estados Unidos), mas as derrotas localizadas, como o domínio de Jesse Owens, um afro-americano, no atletismo foi visto como uma humilhação.
Hitler não desistiu e continuou a fazer do desporto uma prioridade. Joseph Goebbels, ministro da Propaganda, admitia que “o desporto alemão tem uma única tarefa: fortalecer o carácter do povo germânico, enchendo-o com o espírito competitivo e a camaradagem necessária para a luta pela existência”. As derrotas de Hitler continuaram nos anos seguintes. Em 1937 foi a vez do ténis, com a grande figura alemã, Gottfried von Cramm, a sair derrotada das finais de Wimbledon (0-3) e do US Open (2-3), ambas contra o norte-americano Don Budge. Em 1938, no futebol e no boxe. Num Alemanha-Áustria, organizado para marcar a integração da equipa austríaca na alemã e com uma combinação para que o jogo terminasse com um empate, Matthias Sindelar vestiu o papel de rebelde. Marcou um dos golos da vitória austríaca (2-0) e celebrou efusivamente em frente aos nazis. No boxe, Max Schmeling foi derrotado por Joe Louis no Yankee Stadium em Nova Iorque perante 70 mil pessoas. Foram humilhações atrás de humilhações. Hitler queria fazer do desporto um sinal de superioridade mas fracassou. Era um prenúncio do que voltaria a acontecer no futuro.




Black Power e Setembro Negro



Podem ser black e negro mas não tiveram nada a ver. O primeiro, em 1968, foi um movimento utilizado pelos afro-americanos nos Jogos Olímpicos da Cidade do México para apoiar a campanha que se vivia nos Estados Unidos pelos direitos civis e pela igualdade. Atingiu o ponto alto quando Tommie Smith e John Carlos fizeram a saudação do movimento durante a cerimónia de entrega de medalhas.











Em 1972, foram os Jogos Olímpicos de Munique a estar em destaque. A prova ficou marcada pelo sequestro e assassinato de 11 membros da equipa olímpica de Israel, por parte do grupo palestiniano Setembro Negro.
Mantendo a tradição, os Jogos Olímpicos continuaram a ser uma maneira de marcar uma posição. Por isso, na década de 1980, em plena Guerra Fria, os norte-americanos boicotaram Moscovo-1980 e em resposta os soviéticos falharam a presença em Los Angeles-1984. Mais recentemente, em Pequim-2008, a China quis mostrar ao mundo que tinha um enorme potencial desportivo e surpreendeu com o domínio nas medalhas.









O desporto e a luta contra o Apartheid 

A África do Sul soube aproveitar o desporto da melhor maneira para promover um reencontro político e social. Nelson Mandela viu no Mundial de râguebi a o portunidade perfeita para mostrar ao mundo que o apartheid era passado e que os dois povos podiam viver em sintonia e partilhar interesses.
O momento foi um ponto de viragem. Os sul-africanos foram campeões mundiais e mais tarde a campanha ficou eternizada por Morgan Freeman no papel de Nelson Mandela no filme “Invictus”.

O exemplo do Futebol 
Como pode um político usar um futebolista para fazer campanha? Portugal sabe o que isso é. A 25 de Setembro de 2009, José Sócrates foi visto a tomar o pequeno-almoço com Luís Figo, que mais tarde manifestou o seu apoio ao primeiro-ministro de então. O caso tornou-se polémico com a notícia, depois desmentida, de um alegado pagamento de 750 mil euros para que o ex-internacional português participasse na campanha de Sócrates.
Em 1998, o choque de forças foi mundial quando EUA e Irão se defrontaram no Mundial de futebol. O jogo foi visto como de segurança máxima e os asiáticos saíram com um triunfo (2-1). Ainda assim, esteve longe de ter a mesma importância da “Guerra das 100 Horas”, que opôs as Honduras a El Salvador. Em 1969, um quinto da população que vivia nas Honduras era natural de El Salvador. Os hondurenhos tinham implementado reformas na imigração e o ambiente de tensão era sufocante. Por isso, os jogos entre as duas selecções, a 8 e 15 de Junho foram marcados por violência. Depois da primeira mão, uma rapariga de El Salvador suicidou-se com um tiro na cabeça e foi vista como mártir, com o funeral transmitido na televisão. A 26 de Junho (dia do playoff na Cidade do México com triunfo para El Salvador por 3-2), os salvadorenhos cortaram os laços com as Honduras e os conflitos na fronteira tornaram-se inevitáveis a 14 de Julho. Duraram 100 horas e nenhum dos países saiu a ganhar.

O poder... e o desporto
"O poder, hoje, é mais fácil de obter, mas difícil de manter... e mais fácil de perder"
(Moisés Natan)

Em democracia, o poder está diluído por muitos centros de decisão, é mais difícil obter consensos e por isso é mais difícil ser-se obedecido, ou seja, hoje, o que interessa é saber aquilo que um "líder" quer fazer mais do que aquilo que ele faz, porque nem sempre o que ele fez era aquilo que ele queria fazer. Significa isto que o poder, hoje, em democracia, está muito limitado, ou por razões orçamentais ou por pressões políticas de lobbies, muito poderosos, que condicionam, de forma decisiva, a capacidade da tomada de decisões que mexam com interesses instalados.
Podemos então falar de contrapoderes de não-poderes e do poder para concluir que a noção de poder que vinda do antigo regime há muito desapareceu e já não é mais a capacidade de obrigar terceiros para passar a ser "a capacidade de convencer terceiros", o que significa que a democracia impõe regras e procedimentos que quase impossibilitam a concretização do programa de acção anunciado, o que faz que os políticos fiquem, publicamente, desacreditados, objectivo prioritário das oposições. Mas há o princípio da reciprocidade a não esquecer, ou seja, quando a oposição ascender ao poder acontecer-lhe-á o mesmo, o que quer dizer: "Quem com ferro mata, com ferro morre."
/.../
 Ora, enquanto estes fenómenos acontecem nas sociedades modernas, o desporto afirma-se cada vez mais como um acto livre e independente que só depende da vontade do indivíduo e do seu mérito, que o pode levar ao topo da escala do êxito e da fama e que aparece, ou pode aparecer, como uma oportunidade de um poder independente, livre, solidário, democrático, porque ali (no desporto) todos são iguais, e onde as pessoas atingem posições de relevo devido ao seu mérito, ao seu valor, e não, como na sociedade fora do desporto, por favores, por batota, por cunhas, por corrupção, etc. etc.
É evidente que estamos a falar de todo aquele desporto que não seja profissional, porque nesse também há política, interesses lobbies e corrupção.
Mas o verdadeiro desporto está hoje a ser uma tentação para o poder político no sentido de ser aproveitado para a propaganda política do regime, como aliás o fez A. Hitler.
É pois necessário que as associações e as federações desportivas, que têm como dirigentes homens "bons" e "dedicados", que trabalham pelo desporto, sem intuitos lucrativos, estejam atentas às intenções do poder político, seja ele da cor que for, para que conserve a sua independência e pureza originais e seja de facto um contrapoder que venha a afirmar-se, no futuro, como um poder que limite a acção, ou acções, do Governo, quando elas não defendam os interesses do verdadeiro desporto.
Mário Bacelar Begonha

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

'Invictus'


Texto 1
Invictus 

Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishment the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul. 
________

Invictus 

De dentro da noite que me rodeia
Negra como um poço de lado a lado
Agradeço aos deuses que possam existir
pela minha alma indomável

Sob as garras cruéis das circunstâncias
eu não tremo e nem me desespero
Sob os duros golpes do acaso
A minha cabeça sangra, mas continua erguida

Para lá deste lugar de lágrimas e ira,
Nada mais se vê que os horrores da sombra.
Mas mesmo assim a ameaça dos anos,
Encontra-me e me encontrar-me-á, sem medo.

Não importa quão estreito o portão
Quão repleta de castigo a sentença,
Eu sou o senhor de meu destino:
Eu sou o capitão de minha alma. 

William Ernest Henley

_______________

Texto 2

Introdução ao filme ‘Invictus’


“Durante o tempo em que esteve na prisão de Robben Island, Nelson Mandela encontrou no poema "Invictus", a força necessária para continuar vivo e manter acesa a chama da luta contra a desigualdade instituída pelo regime do Apartheid.
Escrito pelo poeta inglês William Ernest Henley em 1875, o poema foi o grande companheiro de Mandela na pequena cela 4 da ala B de Robben Island. Condenado a trabalhos forçados, foi na cadeia localizada numa ilha a 11 quilómetros da Cidade do Cabo, que o líder da luta contra o Apartheid passou 18 dos 27 anos que esteve preso. Mandela contou que, toda vez que fraquejava, lia e relia o poema para aplacar o sofrimento e buscar forças para seguir em frente.
‘Invictus’ também é o título do filme realizado por Clint Eastwood, que conta a história da conquista do título mundial de Rugby pela seleção da África do Sul durante o Campeonato Mundial realizado naquele país. Durante a competição, Mandela entrega o poema ao capitão da seleção sul-africana, para motivá-lo a ganhar a competição. O então presidente percebia que a vitória poderia unir o país, que ainda enfrentava a segregação racial.”

Texto 3
Comentário do filme ‘Invictus’

"O amor da democracia é o da igualdade."
Barão de Montesquieu

Vi novamente o filme "Invictus" (2009), uma história real sobre o início do governo de Nelson Mandela. Confesso que me emocionei tanto quanto da primeira vez. Este filme é baseado no livro "Conquistando o Inimigo" de John Carlin. O "inimigo" de Mandela neste caso era a minoria "branca" e poderosa da África do Sul.
Ouvimos muito sobre o regime do Apartheid, mas vendo o filme, ele ganha uma nova dimensão e conseguimos parcialmente imaginar o quão desafiador o trabalho do Presidente Nelson Mandela foi, especialmente logo após ser eleito. Ele teve que encarar o desafio de implantar um regime democrático num país completamente dividido e à beira de uma guerra civil.
Através do rugby, Mandela inicia algo aparentemente impossível: estabelecer a união de uma nação tão dividida e aparentemente "diferente". 
Algumas frases do Mandela ecoaram na minha alma e espero poder um dia viver como ele, sem mágoa em relação aos que o prejudicaram (27 anos preso) e principalmente sem nunca desistir dos seus sonhos e desafios.
O Apartheid (separação) foi um regime de segregação racial adotado de 1948 a 1994 pelos sucessivos governos do Partido Nacional na África do Sul, no qual os direitos da grande maioria dos habitantes foram cerceados pela minoria branca. A segregação racial na África do Sul teve início ainda no período colonial, mas o apartheid foi introduzido como política oficial após as eleições gerais de 1948. A nova legislação dividia os habitantes em grupos raciais ("negros", "brancos", "de cor", e "indianos").
Nessa altura, o segregou a saúde, a educação e os outros serviços públicos, fornecendo aos negros serviços inferiores aos dos brancos.
O apartheid trouxe violência e um significativo movimento de resistência interna, bem como um longo embargo comercial contra a África do Sul. Uma série de revoltas populares e protestos levaram à repressão violenta da oposição e a detenção de líderes anti-apartheid. 
Reformas no regime durante a década de 1980 não conseguiram conter a crescente oposição, e em 1990 o presidente Frederik Willem de Klerk iniciou negociações para acabar com o Apartheid, o que culminou com a realização de eleições multirraciais e democráticas em 1994, que foram vencidas pelo Congresso Nacional Africano, sob a liderança de Nelson Mandela.
Algumas palavras de Nelson Mandela:
“O perdão liberta a alma. Ele remove o medo. Por esta razão é uma "arma" tão poderosa.”
"Ninguém nasce a odiar outra pessoa pela cor da sua pele, pela sua origem ou ainda pela sua religião.
Para odiar, as pessoas precisam de aprender, e se podem aprender a odiar, também podem ser ensinadas a amar."
_____________

Atividades:

I – Com base nos textos desta ficha, elaborem um comentário do filme ‘Invictus’, desenvolvendo os seguintes tópicos:
  a) A importância da igualdade em democracia;
  b) a necessidade da luta contra o racismo e todas as formas de intolerância;
  c) o exemplo de Nelson Mandela;
  d) uma análise do poema ‘Invictus’;
  e) a relação entre a política e o desporto/ a relação entre a democracia e o desporto.
O comentário deve ter um mínimo de 250 palavras.

domingo, 21 de setembro de 2014

A Democracia e os Partidos Políticos



Texto 1 - A democracia e os partidos políticos
O art. 10.º, n.º 2, da Constituição da República Portuguesa determina que os “partidos políticos concorrem para a organização e expressão da vontade popular”. A expressão “concorrem” significa que os partidos contribuem, no seu conjunto, “para a organização e expressão da vontade popular”.
Num país com cerca de dez milhões de habitantes seria impraticável que todas as decisões políticas (incluindo as leis) implicassem o recurso ao referendo. Daí que o mesmo art. 10.º, agora no seu número 1, refira que o “povo exerce o poder político através do sufrágio universal […] e das demais formas previstas na Constituição”.
Deste modo, o povo elege “representantes” que se tornarão, por esta via, titulares de órgãos de soberania (deputados, membros do Governo, Presidente da República) com o poder de tomar decisões políticas (incluindo criar leis), com o poder de fazer escolhas em nome do povo. É este o significado de democracia representativa.
E como se escolhem as pessoas para desempenhar estes cargos? Aqueles que estão dispostos a candidatar-se a tais funções, bem como as pessoas que os querem ajudar, associam-se em torno de um sistema coerente de valores, ideias e objetivos, uma ideologia, e formam um partido político. Assim, o povo participa na decisão política essencialmente através dos seus representantes.
Estes representantes, porém, devem atuar de acordo com o mandato que lhe foi conferido pelos eleitores, mandato esse que consistirá no programa apresentado ao eleitorado e que este sufragou através do voto. Este programa representa uma proposta que cada partido faz ao eleitorado baseada na sua ideologia política.
O que acontece hoje em Portugal é algo diferente, porém. Os partidos não defendem aquilo que consideram correto e adequado para o país de acordo com a sua ideologia política, mas limitam-se a berrar histericamente nos meios de comunicação social aquilo que eles acreditam que as pessoas querem ouvir.
O discurso político (o modo como é construída a mensagem destinada aos eleitores) deixou de ser persuasivo e passou a ser manipulador, com recurso à meia verdade, ou mesmo à mentira pura e dura, à descontextualização, à exacerbação da histeria colectiva; um discurso onde não existe lugar para a decência e a ética. Tudo com a ajuda da comunicação social. Vale tudo para ganhar eleições.
Salvo algumas exceções, os políticos deixaram de defender uma ideologia. Sem a ideologia o debate político perde sentido; ficam os interesses individuais (ocultos) e o insulto. Quem tem ideias e não tem receio de as defender (mesmo contra o pensamento dominante) foge da política, porque não se quer “sujar” (quando a função política devia ser a função mais nobre de qualquer sociedade), não quer ver a sua vida privada escrutinada e exposta nos jornais e nas televisões, nem quer ser difamado pelos medíocres do costume.
Se aspiramos a algo mais do que ter um “dono justo” devemos ser exigentes, antes que seja tarde demais.
Agostinho Guedes 
(Texto Adaptado) 


Texto 2 - O que é a esquerda e a direita?
Direita e esquerda são posições políticas originárias do lugar ocupado pelos representantes da sociedade francesa nas cadeiras da Assembleia Nacional Constituinte, no tempo de Luís XVI, nos anos finais do Antigo Regime, no século XVIII. Os representantes dos nobres, burgueses ricos e elementos do clero ficavam à direita. Eram os que não queriam grandes alterações na ordem social e política, que os beneficiava por meio de um sistema de privilégios.
Os representantes da pequena e média burguesia e de pessoas simpáticas a tais sectores ficavam à esquerda. Eram os que desejavam o fim dos privilégios e uma reforma política e social que, segundo eles, tiraria a França da crise em que se encontrava, e em função da qual o rei havia convocado a Assembleia.
Com o tempo e por influência cultural e política da França, essa terminologia tipicamente francesa ganhou o mundo, sendo adotada inicialmente pelos jornais tendo-se, depois, generalizado. Desse modo, historicamente a expressão “direita política” passou a identificar os partidos dos economicamente privilegiados, enquanto que a expressão “esquerda política” ficou conotada com os partidos dos menos privilegiados.
Assim, em termos históricos, direita e esquerda não se definiram inicialmente pelas relações entre indivíduo, sociedade e estado, como em geral tendemos a pensar hoje em dia, mas segundo uma divisão entre a “política dos ricos” e a “política dos pobres”. No entanto, na política europeia, os ricos diziam preferir um estado que viesse a garantir certos serviços essenciais, mas sem interferir muito diretamente nas forças económicas e principalmente no mercado. Por sua vez, os pobres queriam subsídios, pagos por meio de impostos e administrados pelo estado, para a amenização da má sorte na lotaria do nascimento.
Desse modo, a direita defendia uma posição alheia ao crescimento do estado na sociedade, enquanto que a esquerda se tornou uma posição em favor da maior participação do estado na vida social.
No decorrer do século 20, fenómenos ligados ao imperialismo alteraram um pouco esse quadro. Alemanha, Japão e Itália desenvolveram um desejo de participar do comércio internacional de forma imperialista, mas esse tipo de posição já tinha dono. Inglaterra, França e, de certo modo, os Estados Unidos já haviam repartido o mundo em três, exercendo toda a forma de neocolonialismo. A ideia que Alemanha, Japão e Itália tiveram, então, foi uma só: quebrariam a ordem liberal interna (democrática) dos seus estados e os colocariam ao serviço de algumas empresas e de alguns grupos de pessoas ricas, com vista terem empresas poderosas, capazes de competir com as empresas privadas das democracias liberais. Além disso, sempre pensando que talvez não pudessem competir de igual para igual, esses países militarizaram-se e quiseram abrir espaço para o comércio com os povos neocolonizados com base da força. Iniciaram então a invasão de países próximos, em busca de um confronto direto com aqueles que então dominavam comercial e industrialmente o mundo. Isso resultou na II Guerra Mundial.
Nasceu dessa posição militarista aquilo que veio a tornar-se genericamente a “política do fascismo”. Uma potência fascista, então, passou a ser aquela constituída como um estado totalitário militarizado, protetor das empresas capitalistas e empresas estatais do seu país, baseado numa hierarquia de poder e privilégios, dos quais participariam não todos os ricos, mas especialmente aqueles que fossem simpatizantes do governo fascista, comandado por um ditador. Esse tipo de posição assumiu-se como “de direita”, é claro, uma vez que se tratava de exercer uma política voltada para os sectores dominantes e ao mesmo tempo para o estado, sendo que este se punha como protetor e protegido desse grupo social, ainda que, é claro, se proclamasse protetor de toda a nação.
No século 20, antes mesmo do surgimento do fascismo, a esquerda também ganhou uma vertente totalitária. A social-democracia defendia a participação do estado na economia em função da melhoria da vida dos mais pobres. Trabalhava, no entanto, com a perspectiva de reformas que apontavam para uma sociedade socialista, assumido como um objetivo posto num horizonte distante, às vezes quase assumidamente utópico. Um sector da esquerda chamou a esse tipo de política de “projeto reformista”, e acusou-o de ser incapaz de realizar o socialismo (o regime que encaminharia para o comunismo, com o fim das classes sociais). Aliás, esses dissidentes passaram a dizer que a social-democracia nem mais queria o socialismo, mas apenas o próprio capitalismo continuamente reformado. O socialismo, ainda segundo esses dissidentes, teria que ser instituído por meio de uma revolução que colocaria toda a economia nas mãos do estado, de modo que este, então, organizaria a produção, a circulação e o consumo dos bens. Além disso, o estado retiraria os meios de produção das mãos dos ricos, e com isso iniciaria a transformação de toda a sociedade numa “nação de trabalhadores”. Sendo todos só trabalhadores, não haveria mais sentido falar em classes sociais, e eis que se estaria aí já no interior do socialismo. A mundialização desse processo eliminaria as classes sociais de todos os lugares, os poderes organizativos de cada estado tornar-se-iam poderes regionais de um só grupo – a humanidade – e isso implicaria o fim dos estados nacionais. Estar-se-ia, então, no comunismo.
Esse Estado socialista que estaria a encaminhar-se para o comunismo, exerceria uma ditadura transitória, revolucionária (a “ditadura do proletariado”), para poder retirar à força os meios de produção dos seus donos. Feito isso, esse estado ir-se-ia encaminhando do socialismo para o comunismo, a sociedade sem classes. Ao menos nas vozes dos seus fundadores, essa situação intermediária, e muito menos a situação final, não se configurariam como regimes totalitários. Pelo contrário, o comunismo seria o regime da mais alta e perfeita democracia, ainda que uma democracia sem partidos políticos e sem dissidências.
Não havendo mais ricos e pobres não haveria sentido falar em partidos ou divergências internas numa tal sociedade e, portanto, o termo “política” perderia o sentido, pois não haveria mais disputas pelo poder.
Paulo Ghiraldelli

Atividades: 
Trabalho de Grupo

 I – Elaborar um mapa conceptual de cada um dos textos.

 II
Para responder às questões seguintes devem basear-se nos textos, mas devem procurar outras fontes.
1.     O que são os partidos políticos?
2.     Podemos considerar que os partidos são fundamentais em democracia? Justifique.
3.     Os partidos políticos, hoje em dia, estão a cumprir uma função positiva na nossa democracia? Justifique.
4.     O que é a direita e a esquerda? Explique estes conceitos tendo em conta a forma como as diversas ideologias políticas encaram a relação do estado com os indivíduos.

 III
Elaboração de um projeto de constituição de um partido político democrático, com as seguintes componentes:

A – Descrição da ideologia do partido: – a) distribuição da riqueza; b) a dimensão do estado na sociedade; c) a relação de Portugal com a União Europeia; d) a integração do partido no espectro político; e) Identificação dos valores fundamentais defendidos pelo partido.
B – Descrição da base sociológica do partido: – a) bases de apoio; b) eleitorado; c) mudanças a efetuar na organização da sociedade.
C – Elaboração do logótipo do partido e duma síntese descritiva do mesmo.

IV – Elaboração duma campanha eleitoral do partido para concorrer às eleições legislativas de 2015.

domingo, 1 de junho de 2014

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão




DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DO HOMEM E DO CIDADÃO DE 1789

Os representantes do povo francês, constituídos em ASSEMBLEIA NACIONAL, considerando que a ignorância, o esquecimento ou o desprezo dos direitos do homem são as únicas causas das desgraças públicas e da corrupção dos Governos, resolveram expor em declaração solene os Direitos naturais, inalienáveis e sagrados do Homem, a fim de que esta declaração, constantemente presente em todos os membros do corpo social, lhes lembre sem cessar os seus direitos e os seus deveres; a fim de que os actos do Poder legislativo e do Poder executivo, a instituição política, sejam por isso mais respeitados; a fim de que as reclamações dos cidadãos, doravante fundadas em princípios simples e incontestáveis, se dirijam sempre à conservação da Constituição e à felicidade geral.
Por consequência, a ASSEMBLEIA NACIONAL reconhece e declara, na presença e sob os auspícios do Ser Supremo, os seguintes direitos do Homem e do Cidadão:

Artigo 1º- Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem fundar-se na utilidade comum.

Artigo 2º- O fim de toda a associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem. Esses Direitos são a liberdade. a propriedade, a segurança e a resistência à opressão.

Artigo 3º- O princípio de toda a soberania reside essencialmente em a Nação. Nenhuma corporação, nenhum indivíduo pode exercer autoridade que aquela não emane expressamente.

Artigo 4º - A liberdade consiste em poder fazer tudo aquilo que não prejudique outrem: assim, o exercício dos direitos naturais de cada homem não tem por limites senão os que asseguram aos outros membros da sociedade o gozo dos mesmos direitos. Estes limites apenas podem ser determinados pela Lei.

Artigo 5º- A Lei não proíbe senão as acções prejudiciais à sociedade. Tudo aquilo que não pode ser impedido, e ninguém pode ser constrangido a fazer o que ela não ordene.

Artigo 6º- A Lei é a expressão da vontade geral. Todos os cidadãos têm o direito de concorrer, pessoalmente ou através dos seus representantes, para a sua formação. Ela deve ser a mesma para todos, quer se destine a proteger quer a punir. Todos os cidadãos são iguais a seus olhos, são igualmente admissíveis a todas as dignidades, lugares e empregos públicos, segundo a sua capacidade, e sem outra distinção que não seja a das suas virtudes e dos seus talentos.

Artigo 7º- Ninguém pode ser acusado, preso ou detido senão nos casos determinados pela Lei e de acordo com as formas por esta prescritas. Os que solicitam, expedem, executam ou mandam executar ordens arbitrárias devem ser castigados; mas qualquer cidadão convocado ou detido em virtude da Lei deve obedecer imediatamente, senão torna-se culpado de resistência.

Artigo 8º- A Lei apenas deve estabelecer penas estrita e evidentemente necessárias, e ninguém pode ser punido senão em virtude de uma lei estabelecida e promulgada antes do delito e legalmente aplicada.

Artigo 9º- Todo o acusado se presume inocente até ser declarado culpado e, se se julgar indispensável prendê- lo, todo o rigor não necessário à guarda da sua pessoa, deverá ser severamente reprimido pela Lei.

Artigo 10º- Ninguém pode ser inquietado pelas suas opiniões, incluindo opiniões religiosas, contando que a manifestação delas não perturbe a ordem pública estabelecida pela Lei.

Artigo 11º- A livre comunicação dos pensamentos e das opiniões é um dos mais preciosos direitos do Homem; todo o cidadão pode, portanto, falar, escrever, imprimir livremente, respondendo, todavia, pelos abusos desta liberdade nos termos previstos na Lei.

Artigo 12º- A garantia dos direitos do Homem e do Cidadão carece de uma força pública; esta força é, pois, instituída para vantagem de todos, e não para utilidade particular daqueles a quem é confiada.

Artigo 13º- Para a manutenção da força pública e para as despesas de administração é indispensável uma contribuição comum, que deve ser repartida entre os cidadãos de acordo com as suas possibilidades.

Artigo 14º- Todos os cidadãos têm o direito de verificar, por si ou pelos seus representantes, a necessidade da contribuição pública, de consenti-la livremente, de observar o seu emprego e de lhe fixar a repartição, a colecta, a cobrança e a duração.

Artigo 15º- A sociedade tem o direito de pedir contas a todo o agente público pela sua administração.

Artigo 16º- Qualquer sociedade em que não esteja assegurada a garantia dos direitos, nem estabelecida a separação dos poderes não tem Constituição.

Artigo 17º- Como a propriedade é um direito inviolável e sagrado, ninguém dela pode ser privado, a não ser quando a necessidade pública legalmente comprovada o exigir evidentemente e sob condição de justa e prévia indemnização.
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Recebeu o nome de Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão um documento elaborado durante a Revolução Francesa de 1789, e que iria refletir a partir de sua divulgação, um ideal de âmbito universal, ou seja, o de liberdade, igualdade e fraternidade, acima dos interesses de qualquer particular.

À época, a França acabava de encerrar séculos de um regime absolutista, onde quem tinha a vontade suprema era o monarca. Tal regime foi importante na construção do estado moderno francês, porque permitiu, ao longo dos séculos, fazer respeitar a unidade nacional e prestar obediência a uma autoridade centralizada. Com o tempo, porém, tal forma de organização do estado passou a ser uma ferramenta tanto da nobreza como do clero para oprimir, controlar e explorar o povo, o que fazia do cidadão da época um ser humano limitado pelas imposições dos governantes do Estado.

A consciência desta situação não estava evidente à maioria da população, pois todos os estados vizinhos seguiam o mesmo formato de administração, e assim, parecia ser o controle total do monarca (o chamado absolutismo) uma forma natural de administração. As ideias trazidas pelo humanismo e mais tarde pelo iluminismo, viriam a mudar a sua perspectiva do povo acerca de um governo eficiente. Com esses novos conceitos, o povo deixaria de ser obrigado a servir aos interesses do governante, surgindo, ao contrário, um governo que passaria a servir aos interesses dos cidadãos, garantindo os seus direitos e deveres.

Foi exatamente devido a esta mudança de perspectiva que se iniciou a Revolução Francesa, que desejava dar todo o poder ao povo. Como a história mostraria, tal desejo seria logo frustrado pelos interesses das classes burguesas, que assumiram de modo informal o controle do estado quando as classes dominantes, nobreza e clero, foram desbaratadas. Mesmo assim, algum progresso foi alcançado, e a consciência de que o povo deveria ser o interesse central no desenvolvimento de qualquer estado foi a partir de então levado a sério. Prova disso é a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, anunciada ao público em 26 de agosto de 1789. A importância desse documento nos dias de hoje é ter sido a primeira declaração de direitos e fonte de inspiração para outras que vieram posteriormente, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos aprovada pela ONU (Organização das Nações Unidas), em 1948.

Apesar da declaração elaborada pela ONU ter um alcance maior, por ter sido elaborado no âmbito de uma organização que agrega boa parte das nações do mundo, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão permanece ainda como documento válido para os nossos dias atuais, por pensar o ser humano acima do poder particular em qualquer esfera, pautando o funcionamento do Estado pelos direitos fundamentais dos cidadãos enquanto seres humanos.
http://www.infoescola.com/direito/declaracao-dos-direitos-do-homem-e-do-cidadao/

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